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Em declarações à Lusa, Paulo Neves mostrou-se preocupado com o impacto que a eventual criação de um serviço concorrente teria na equipa que atualmente coordena. O médico defende que não há profissionais disponíveis no mercado para tripular um novo centro sem desfalcar os já existentes, referindo-se não apenas aos cirurgiões, mas a toda a estrutura multidisciplinar que sustenta a atividade. “Nós estamos a amputar capacidade aos centros existentes”, resumiu, criticando aquilo que designou como uma “lógica de dispersão” que contraria as recomendações internacionais, favoráveis à concentração de procedimentos para ganhos em qualidade e eficiência.
A tomada de posição surge na sequência de uma notícia do Diário de Notícias que dava conta de uma carta subscrita por quatro serviços de cardiologia do Norte a ser entregue à ministra da Saúde. O documento alerta para as listas de espera de doentes cardíacos, que atualmente são referenciados para a ULS São João e para a própria ULS Gaia/Espinho. Apesar de a missiva ter como mote a necessidade de reflexão sobre o panorama na região, a verdade é que, nas entrelinhas, sobressai a ambição da ULS Santo António em se tornar um novo centro de referência. Os signatários incluem, além do Santo António, as ULS do Tâmega e Sousa, de Trás-os-Montes e Alto Douro e de Matosinhos.
O caso ganha contornos mais tensos quando se fala no modelo de funcionamento que estará a ser equacionado para o Porto. Paulo Neves afirma ter conhecimento, através de elementos da sua própria equipa que foram contactados, de que a ULS Santo António pretende avançar com um regime de prestação de serviços. Na prática, explicou, isso significaria pagar por ato ou procedimento a cirurgiões que, no seu hospital, cumprem as 40 horas semanais e auferem valores por hora que considera manifestamente mais baixos para a complexidade do trabalho. “De um lado cirurgiões a fazer procedimentos complexos e a ganhar 20 e poucos euros à hora. Do outro cirurgiões a ganhar por procedimento, por ato, e a fazer procedimentos muito mais simples”, comparou, sublinhando o fosso salarial que se criaria. Além dos cirurgiões, já terão sido abordados profissionais.
A ULS Santo António, contactada pela Lusa, ainda não prestou esclarecimentos. No entanto, o diretor do serviço de Cardiologia daquela unidade, André Luz, citado pelo DN, justifica a pretensão com a incapacidade de resposta atualmente verificada. Diz que o hospital referencia anualmente mais de duas centenas e meia de doentes para cirurgia ou implantação de válvula aórtica e que, embora reconheça o mérito dos centros que recebem estes doentes, os tempos de espera não estão a ser cumpridos. Refere ainda que o Santo António reúne infraestrutura e competência para realizar esses atos e que aguarda há mais de uma década por uma autorização.
Do lado de Gaia, Paulo Neves contrapõe com números. Diz que a sua unidade reduziu a lista de espera em 40% no último ano e meio e que, neste momento, os cerca de 170 doentes aguardam, em média, 2,3 meses. Um valor que, no seu entender, se equipara favoravelmente à realidade internacional. A Lusa aguarda ainda esclarecimentos da Direção-Executiva do SNS e de outras ULS da região.
NR/HN/Lusa



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