Consumo de crack dispara atrás das grades e expõe violência no sistema prisional

19 de Fevereiro 2026

O consumo de crack nas prisões portuguesas aumentou 60% entre 2014 e 2023, revelou hoje o Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências, sublinhando a relação desta substância com contextos de violência e criminalidade

A presidente do ICAD, Joana Teixeira, compareceu na Comissão Parlamentar de Saúde para apresentar o Relatório Anual 2024 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências, e os números relativos ao consumo atrás das grades não passaram despercebidos. “Houve um aumento de 60% de indiciados e condenados por consumo de crack”, afirmou aos deputados, acrescentando que o fenómeno “representa realmente a violência e a criminalidade que está associada”.

Em declarações à Lusa, a psiquiatra precisou que se trata, na sua maioria, de pessoas que já consumiam antes da reclusão. O retrato traçado pelo instituto mostra que a cocaína — sobretudo na sua forma mais perigosa — tem vindo a ganhar terreno. “O que observamos na cocaína é efetivamente o seu aumento nos últimos anos, mas um aumento muito à base do crescimento do crack, que tem algumas particularidades que tornam esta substância muito mais deletéria e com muito mais repercussões na saúde e na sociedade”, explicou.

A particularidade está na velocidade com que atua no organismo. Enquanto a cocaína em pó demora cerca de vinte minutos a atingir o efeito máximo, o crack resolve a questão em cinco minutos e o efeito dissipa-se quase de imediato. “Isto aumenta a procura, aumenta o vai e vem para compra da substância, e isso para quem está do lado do mercado da oferta pode ser uma grande vantagem, mas para quem está do lado da redução da procura é um desafio adicional”, sublinhou Joana Teixeira, referindo-se à dependência de “gravidade muito elevada” que daí resulta.

Os dados apresentados indicam que o número de toxicodependentes a iniciar tratamento atingiu em 2024 o valor mais alto da última década, confirmando a tendência já registada no ano anterior. A responsável do ICAD garantiu estar em curso um levantamento das necessidades de intervenção especificamente dirigidas à cocaína, uma tarefa que não se esgota na área da saúde. “Não é apenas uma questão psiquiátrica pura de tratamento médico, implica aqui uma abrangência mais holística com a parceria de várias entidades”, observou.

Há outros fatores que preocupam os técnicos. A pureza das substâncias disponíveis no mercado tem aumentado — o que potencia os efeitos e o risco de dependência — e os policonsumos são cada vez mais frequentes. Muitas vezes, explicou Joana Teixeira, as drogas já vêm adulteradas ou associadas a outras substâncias que “aumentam ainda mais o potencial aditivo”. Referiu-se, a título de exemplo, a opioides sintéticos ou a novas substâncias psicoativas misturadas com cocaína ou heroína.

O relatório do ICAD revela ainda que em 2024 a potência média do haxixe, o grau de pureza da cocaína base/crack e do ecstasy atingiram os valores mais elevados dos últimos dez anos. Em sentido contrário, a heroína apresentou o grau de pureza mais baixo do mesmo período. Apesar de as apreensões de crack terem diminuído no último ano, os números dos três anos anteriores ficaram muito acima da média registada entre 2015 e 2021.

Outro sinal que merece atenção das autoridades é o desmantelamento, em 2024, de quatro laboratórios de transformação de pasta base de coca em cloridrato de cocaína. O fenómeno, que já se verifica noutros países europeus, representa o risco de instalação definitiva deste tipo de estruturas em território nacional. “Aquilo que queremos é intervir em estreita articulação com as outras entidades de tratamento e também na área social e na área das autarquias”, assegurou a presidente do ICAD, deixando no ar a complexidade de uma resposta que terá de envolver vários setores.

NR/HN/Lusa

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