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A Ordem dos Farmacêuticos (OF) veio a público manifestar profunda preocupação com a propagação, em várias plataformas digitais, do chamado “desafio do paracetamol”. Trata-se, segundo a nota divulgada hoje, de uma dinâmica perigosa que circula sobretudo entre adolescentes, funcionando como uma competição onde se incentiva a toma deliberada e excessiva deste fármaco. “A circulação nas redes sociais de conteúdos que incentivam à ingestão excessiva de paracetamol constitui um sério risco para a saúde”, lê-se no comunicado.
O fenómeno não é inédito em Portugal e tem paralelos um pouco por toda a Europa. A própria Ordem adianta que situações semelhantes têm vindo a ser reportadas noutros países, nomeadamente na Alemanha, Bélgica, Espanha, França e Suíça, o que confere ao problema uma dimensão transnacional e exige uma resposta coordenada de sensibilização. A preocupação acresce porque, como realça a OF, os efeitos tóxicos do paracetamol podem instalar-se de forma silenciosa: a toxicidade hepática manifesta-se, não raro, antes do aparecimento de sintomas clínicos evidentes, o que “torna imperativa uma abordagem preventiva e informada junto desta população”.
O paracetamol é, reconhecidamente, um dos analgésicos e antipiréticos mais comuns no dia a dia das famílias portuguesas. A sua eficácia no controlo da dor e da febre, aliada a um perfil de segurança favorável quando usado dentro das doses terapêuticas, faz dele um medicamento de eleição um pouco por todo o mundo. Contudo, a segurança desaparece quando se ultrapassam os limites recomendados. A sobredosagem, alerta a Ordem, é o calcanhar de Aquiles desta substância. Uma ingestão maciça, ainda que pontual, ou o uso continuado acima das doses aconselhadas, pode desencadear lesões hepáticas de monta, por vezes irreversíveis. Em situações limite, a evolução pode ser para insuficiência hepática aguda, exigindo transplante urgente ou, no pior dos cenários, culminar na morte do indivíduo. Menos comum, mas também possível, é o aparecimento de lesões renais, geralmente associadas a padrões de uso prolongado ou a excessos reiterados.
Os primeiros sinais de que algo não está bem costumam fazer-se sentir nas primeiras 24 horas após a ingestão. Náuseas, vómitos, uma sudorese inexplicável, uma sensação de mal-estar generalizado e uma certa letargia são os indicadores iniciais. Com a progressão da agressão ao fígado, surge frequentemente dor abdominal, um sinal de que o quadro se está a agravar e a caminhar para complicações sérias. Perante a suspeita de que alguém possa ter ingerido uma dose excessiva, a mensagem da Ordem é clara: não se deve esperar por sintomas. A assistência médica tem de ser procurada de imediato, pois o tratamento da sobredosagem é tanto mais eficaz quanto mais cedo for administrado.
Neste contexto, os farmacêuticos assumem uma posição que a Ordem classifica como “particularmente relevante na prevenção de intoxicações e na promoção do uso seguro” dos medicamentos. A sua intervenção, especificamente dirigida aos adolescentes, visa sensibilizar para os perigos concretos que decorrem da participação nestes desafios online, desconstruindo a ideia de que se trata de uma brincadeira inofensiva. O foco está em explicar, de forma clara, o potencial tóxico do paracetamol a nível hepático e renal, quando usado fora do contexto terapêutico para o qual está indicado.
NR/HN/Lusa



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