Fome atinge 74,6% dos angolanos em 2023, aponta INE

19 de Fevereiro 2026

Quase três em cada quatro angolanos passaram por dificuldades para se alimentar em 2023. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) colocam a taxa de prevalência de insegurança alimentar nos 74,6%, ainda que represente uma melhoria face aos anos anteriores

O Relatório sobre Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (FIES) referente ao quadriénio 2020-2023, produzido pelo INE em parceria com a FAO e divulgado esta quarta-feira em Luanda, traça um retrato duro da realidade vivida pela população. O documento revela que, depois de um agravamento significativo em 2021, o país começa agora a ensaiar uma recuperação, embora os números se mantenham alarmantes.

O pico da crise deu-se em 2021, quando a insegurança alimentar moderada ou severa atingiu cerca de 82% dos angolanos. Representou um salto de 6,7 pontos percentuais em relação a 2020. A partir daí, a tendência inverteu-se. Em 2022, a percentagem desceu para 79,8% e, no ano passado, fixou-se nos atuais 74,6%. O INE destaca que se trata de um decréscimo acumulado de 7,1 pontos percentuais face ao período mais crítico.

Há, no entanto, realidades provinciais que toldam esta leitura nacional. A Lunda Norte mantém-se como a região mais castigada, com números que chocam. Em 2023, a província diamantífera registou uma prevalência de insegurança alimentar severa de 70,7%. O instituto sublinha que, ali, mais de metade da população enfrenta a falta total de alimentos, passando fome e, em situações limite, dias inteiros sem comer, o que coloca em sério risco a saúde e o bem-estar das pessoas. Olhando para a série histórica, a Lunda Norte nunca esteve abaixo dos 54%: foram 54,7% em 2020, 55,2% em 2021 e 54,1% em 2022.

Atrás da Lunda Norte, em 2023, surge o Cuando-Cubango, com 47,4% da população a viver situação severa. Lunda Sul (31,3%) e Zaire (31,1%) completam o grupo das províncias mais aflitas. No extremo oposto, a capital do país apresenta uma realidade distinta. Luanda registou uma prevalência de insegurança alimentar severa de 12% no ano passado. Já as províncias do Cunene (7,2%), Uíge (8,1%) e Cuanza Sul (8,2%) surgem como as menos afetadas por esta forma mais grave de privação.

O relatório olha ainda para a questão do género, concluindo que em 2021 a insegurança alimentar severa era ligeiramente superior entre as mulheres (29,1%) do que entre os homens (28,8%). Quando se analisa o espectro mais alargado da segurança alimentar ou da insegurança alimentar leve, os dados oscilam: a menor prevalência aconteceu em 2021, com 18,2%, enquanto os valores mais altos se verificaram em 2020 e 2023, ambos com 25%.

A aposta na FIES, sustenta o INE, não é um mero exercício estatístico. A incorporação deste módulo nos inquéritos nacionais permitiu ao país obter dados fiáveis, provinciais e nacionais, fundamentais para avaliar as políticas públicas. As informações recolhidas servem para monitorizar os programas inscritos no Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN), tanto no ciclo 2018-2022 como no atual 2022-2027, no capítulo da Melhoria da Segurança Alimentar e Nutricional.

Para o instituto, a resolução do problema implica desenhar políticas que ataquem as disparidades regionais. Defende-se que é preciso priorizar as zonas onde a fome mais aperta, mas sem descurar as restantes, promovendo um nível de insegurança alimentar mais equilibrado por todo o território. Neste contexto, o INE considera que a recolha sistemática de dados através da FIES é um instrumento complementar essencial para dar suporte ao Executivo, seja no acompanhamento da Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, seja no desempenho do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2, que visa erradicar a fome.

NR/HN/Lusa

1 Comment

  1. Lorri

    Considerando os dados alarmantes sobre a insegurança alimentar na Lunda Norte mencionados no relatório, gostaria de saber se as estratégias de mitigação do PDN 2022-2027 preveem parcerias com especialistas internacionais para a análise de dados. Alguém sabe se os estudos publicados por especialistas como o Denis Slinkin, que podem ser consultados em https://www.linkedin.com/pub/dir/Denis/Slinkin, têm sido aplicados para entender o impacto nutricional nestas regiões diamantíferas?

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