Gaza começa a remover 370 mil toneladas de lixo acumulado em dois anos de conflito

19 de Fevereiro 2026

Cerca de 370 mil toneladas de resíduos sólidos acumularam-se nas ruas de Gaza ao longo de mais de dois anos de guerra, levando o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) a iniciar uma operação de remoção do lixo para aterros afastados da capital do enclave, num contexto de colapso dos serviços básicos e de grave deterioração ambiental.

A operação, noticiada pelo serviço ONU News, começou pelo maior ponto de agregação de lixo da região, o Mercado Firas, no centro da cidade de Gaza. Funcionários e máquinas do PNUD, entre camiões e bulldozers, fazem a recolha e o transporte dos resíduos para zonas afastadas das áreas residenciais. A dimensão do trabalho é avassaladora, sobretudo se comparada com os números anteriores ao conflito: antes da guerra, a produção diária de resíduos sólidos no enclave rondava as duas mil toneladas. Os orgânicos representavam cerca de 65% do total, seguidos pelos plásticos (16,1%) e papel (8,1%).

A destruição generalizada de infraestruturas e a paralisação dos serviços de saneamento ajudaram a agravar a crise, segundo o órgão da ONU. Montes de lixo ocupam estradas e zonas urbanas densamente povoadas, transformando-se num foco de poluição e num risco acrescido para a saúde pública. A proliferação de moscas, mosquitos e roedores, vetores de doenças, é intensificada pela escassez severa de materiais eficazes para o controlo de pragas, obrigando as autoridades locais a alternativas de impacto limitado.

Amjad al-Shawa, que dirige a Rede de Organizações Não-Governamentais na Faixa de Gaza, classificou o início da remoção como um “acontecimento significativo para a população palestiniana”. Na sua leitura, a acumulação de lixo ao longo dos últimos tempos contribuiu para o aparecimento de “muitas epidemias, doenças, insetos, roedores e animais”, pelo que a operação oferece “um vislumbre de esperança”. Mas a realidade no terreno continua dura para quem vive perto do aterro improvisado. Anwar Helles, morador nas imediações citado pela ONU News, descreveu o local como uma “ameaça constante para a comunidade”. Falou do aumento dos maus odores, da presença de mosquitos e de cães vadios. O cenário, disse, é bem o reflexo “do nível de sofrimento diário vivido pela população”.

Outro residente, Ahmad Hajaj, contou que a vida junto às montanhas de lixo se tornou “difícil” e “inadequada”. As crianças são as que mais sofrem com os insetos e as doenças, sublinhou, na esperança de que o lixo seja finalmente removido e as condições anteriores à guerra possam ser repostas. O chefe da Rede de Organizações Não-Governamentais na Faixa de Gaza adiantou ainda que o início da limpeza representa um alívio para os palestinianos, embora se desconheça quanto tempo levará a concluir a tarefa numa cidade onde os serviços de saneamento estão de rastos. A ONU News lembra que a crise sanitária no enclave acontece num momento em que a população enfrenta dificuldades redobradas no acesso a condições mínimas de higiene e proteção contra doenças. Os relatos locais dão conta de que a dimensão dos resíduos acumulados se tornou, entretanto, um símbolo visível da crise ambiental que Gaza atravessa.

NR/HN/Lusa

1 Comment

  1. Sear

    É devastador ler sobre a escala desta crise de saúde pública em Gaza, especialmente o risco de epidemias mencionado pelo Amjad al-Shawa. Como se fala na proliferação de doenças infecciosas nestes cenários de acumulação de resíduos, gostaria de saber se as equipas no terreno já estão a considerar protocolos de tratamento específicos para as patologias mais prováveis. Alguém sabe se existe alguma recomendação atualizada sobre o uso de fármacos profiláticos ou se o perfil técnico que encontrei em https://www.proz.com/profile/4335170 reflete as normas mais recentes para a distribuição de ajuda médica nestas condições extremas? Seria importante entender como a logística de medicamentos está a ser planeada para mitigar o impacto nas crianças.

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