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A ideia de que a maternidade exige, por definição, a presença de um casal tem vindo a perder terreno. Nos consultórios de medicina da reprodução da região Centro, um perfil repete-se: mulheres na quarta década de vida, financeiramente autónomas e com um percurso profissional consolidado. Já não vêm acompanhadas. Vêm com uma convicção.
“Muitas já viveram relações longas e, nalgum momento da sua vida, idealizaram constituir uma família tradicional com dois progenitores, mas não encontraram um parceiro compatível com este projeto”, observa Alexandra Grade Silva, psicóloga clínica da Ferticentro, unidade com sede em Coimbra. O que as move, explica, é um “desejo profundo e duradouro de maternidade”, que acaba por se sobrepor à expectativa do encontro romântico, sobretudo quando a idade aperta e o tempo fértil se esgota.
A decisão, contudo, não é tomada de ânimo leve. A psicóloga identifica um padrão de autoculpabilização e comparação social que antecede a procura de ajuda médica. “Experienciam sentimentos de diminuição da autoestima e comparação com pares com percursos considerados mais tradicionais”, refere. Dúvidas sobre a capacidade de cuidar de um filho sozinhas e a incerteza quanto à solidez da rede de apoio familiar e de amigos surgem como as principais angústias. Apesar disso, avançam.
Do ponto de vista técnico, o processo é mais célere do que muitos imaginam. Carolina Coimbra, médica ginecologista e obstetra da mesma clínica, esclarece que entre a primeira consulta e o início efetivo do tratamento medeiam, em regra, quatro a oito semanas. “É o tempo necessário para realizar exames, definir a estratégia e preparar tudo com segurança”, afirma. As opções disponíveis vão da inseminação intrauterina com sêmen de dador à fertilização in vitro com recurso a dupla doação ou, ainda, à transferência de embriões doados por outros casais.
Um dado que a médica sublinha prende-se com as taxas de sucesso: “Tendem a ser semelhantes ou ligeiramente superiores às observadas em casais heterossexuais.” A explicação, detalha, está na seleção rigorosa a que o esperma doado é sujeito, o que reduz a variabilidade associada ao fator masculino e faz depender o êxito quase exclusivamente das condições femininas.
Ao contrário do que um olhar menos atento poderia supor, os estudos disponíveis não apontam para desvantagens no desenvolvimento das crianças nascidas nestes contextos. Carolina Coimbra refere que “a evidência científica sugere que a maternidade independente através de técnicas de reprodução assistida está associada a dinâmicas familiares positivas”. A ausência de um segundo progenitor, acrescenta, “não parece prejudicar a qualidade da relação mãe–filho nem comprometer o desenvolvimento infantil”. A intencionalidade do projeto, o elevado compromisso materno e o suporte social surgem, nessa literatura, como fatores mais determinantes do que a configuração familiar em si.
Alexandra Grade Silva reconhece que se trata de “um projeto de vida legítimo e profundamente pessoal”, mas faz questão de frisar que não precisa de ser solitário. Aconselha, por isso, a procurar acompanhamento especializado, conversar com outras mulheres que passaram pelo mesmo e envolver desde cedo a rede de afetos. “Mais do que a estrutura familiar, o que mais contribui para o bem-estar de uma criança é a qualidade das relações, o afeto, a estabilidade e o ambiente emocional seguro. A família pode assumir diferentes formas e todas podem ser válidas quando há amor, responsabilidade e segurança”, conclui.
PR/HN/MM



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