Noruega, Suécia e Finlândia dão lição a Moçambique: sem transparência não há futuro

19 de Fevereiro 2026

Os embaixadores dos países nórdicos defenderam hoje em Maputo que Moçambique precisa adoptar uma cultura de prestação de contas, controlo dos poderes do Estado e imprensa livre como caminho para o desenvolvimento sustentável, partilhando as experiências das suas nações

Egil Thorsås, embaixador da Noruega, foi directo ao falar na conferência Moçambique – Países Nórdicos, promovida pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC). Para ele, não há volta a dar: é preciso alicerces sólidos. “Começa com a participação dos cidadãos, exige liberdade de expressão, uma imprensa livre, uma sociedade civil forte, eleições livres e credíveis, mecanismos claros de controlo dos poderes do Estado e equilíbrio e uma cultura de prestação de contas”, afirmou, sublinhando que o futuro de Moçambique não pode ficar refém de uma minoria. “Não me cabe a mim decidir o futuro de Moçambique, esse futuro cabe ao povo, não apenas pessoas que estão numa posição privilegiada”, acrescentou, deixando no ar a ideia de que o país ainda tem chão pela frente.

Thorsås recordou que os nórdicos levaram um século a construir o modelo de bem-estar social, sempre com instituições bem delineadas. “Somos países pequenos”, lembrou, quase como quem pede desculpa pela dimensão, mas isso obrigou-os a serem rigorosos: fronteiras nítidas entre os poderes, parlamentos com peso real e mecanismos de controlo a funcionar.

Andrés Jato, o embaixador sueco, pegou no testemunho e puxou para a questão das parcerias. Na Suécia, disse, ninguém se salvou sozinho. “Nenhum destes atores pode alcançar progresso a longo prazo sozinho, cada um traz pontos fortes que outros não têm e quando trabalham juntos a sociedade torna-se mais resiliente e mais inovadora.” E atirou um recado que soou a aviso amigável: o crescimento tem de chegar a toda a gente. “Os países nórdicos adotaram uma economia de mercado, mas combinaram-na com fortes proteções sociais, acesso à educação e um compromisso em garantir que todos possam participar no desenvolvimento social. O crescimento por si só não é suficiente, a menos que beneficie uma ampla população.”

Jato não se ficou pelos princípios. Falou de medidas concretas, como o empoderamento das mulheres – uma aposta que, garantiu, acelerou tudo – e um sistema tributário que não engana ninguém. “Todos contribuem de acordo com as sua capacidades e as receitas são utilizadas de forma transparente”, explicou, prometendo que a Suécia está disponível para apoiar Moçambique nessa direcção.

Satu Lassila, embaixadora da Finlândia, trouxe para a mesa a história do seu país. “Evoluímos em 100 anos de um país marcado por guerras para uma das democracias mais estáveis do mundo”, contou, e o segredo, se é que existe, esteve nas pessoas. A Finlândia apostou tudo na educação, mas numa educação que fosse para todos, sem distinções. “Queríamos garantir a todas as crianças oportunidades iguais de aprendizagem. Construímos um sistema educativo em que o direito a uma educação básica de qualidade não dependia da riqueza da família e nem do local de residência ou do género.”

Lassila insistiu na formação de professores de qualidade e na valorização da profissão, algo que, reconheceu, custa a interiorizar noutras latitudes. “A educação deixou de ser vista como despesa, mas investimento nacional”, sublinhou, deixando um apelo claro a Moçambique: é preciso construir instituições fortes, com uma administração pública que não seja marioneta do poder político, e abrir espaço para mais partidos. O tom foi de quem partilha uma receita que deu certo, sem impor nada, mas com a convicção de quem sabe do que fala.

NR/HN/Lusa

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