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O Ministério da Saúde queniano anunciou que o país vai começar a distribuir o lenacapavir no próximo mês, depois de ter recebido o primeiro lote de 21.000 doses na terça-feira. O medicamento, desenvolvido pela farmacêutica norte-americana Gilead Sciences, representa uma mudança de paradigma na profilaxia: em vez da toma diária de comprimidos, os pacientes precisam apenas de duas injeções por ano.
O anúncio foi feito por Aden Duale, ministro da Saúde, através de um comunicado onde detalhou que a fase inicial abrange 15 condados, sem especificar quais. “Esperamos mais 12.000 doses até abril”, adiantou o governante, revelando ainda que o governo dos Estados Unidos se comprometeu a fornecer 25.000 doses adicionais ao país africano.
O Quénia junta-se assim a África do Sul, Essuatíni e Zâmbia, que já utilizam o fármaco desde dezembro, integrando o grupo de nove nações africanas selecionadas no ano passado para a introdução do tratamento. A escolha do continente não surpreende: segundo dados da ONUSIDA referentes a 2024, a África Oriental e Austral concentram cerca de 52% dos 40,8 milhões de pessoas que vivem com VIH/Sida no mundo.
A chegada do lenacapavir acontece num contexto delicado para os programas de saúde financiados externamente. Os cortes na ajuda humanitária promovidos pela administração Trump têm afetado projetos em toda a África, mas o Quénia parece ter garantido uma margem de manobra. Em dezembro, os dois países assinaram um acordo bilateral de assistência sanitária no valor de 2,5 mil milhões de dólares (cerca de 2,11 mil milhões de euros) — o primeiro deste género após o desmantelamento da USAID.
O entendimento prevê que Washington disponibilize 1,6 mil milhões de dólares (1,35 mil milhões de euros) ao longo de cinco anos para combater o VIH/Sida, a malária e a poliomielite. Nairóbi comprometeu-se a contrapartidas de 850 milhões de dólares (717,74 milhões de euros), num modelo que pretende transferir gradualmente mais responsabilidades para as autoridades locais. A prevalência do VIH no Quénia fixa-se nos 3,7%, um número que as autoridades esperam reduzir com a nova ferramenta.
O processo, no entanto, não está isento de controvérsia. Um senador queniano avançou com uma ação judicial contra o acordo com os Estados Unidos, alegando múltiplas violações constitucionais no procedimento de celebração do memorando. O caso aguarda decisão dos tribunais, mas por enquanto não trava a distribuição do fármaco.
NR/HN/Lusa



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