Sónia Dias: “A nova licenciatura em Saúde Pública Global reflete o futuro da saúde pública e o papel das universidades”

02/19/2026
A Escola Nacional de Saúde Pública da NOVA lança a primeira licenciatura em Saúde Pública Global em Portugal. Em entrevista ao HealthNews, a diretora Sónia Dias explica o programa pioneiro, a interdisciplinaridade e a preparação para desafios como alterações climáticas, IA e sustentabilidade

HealthNews (HN) – A NOVA vai lançar a primeira Licenciatura em Saúde Pública Global em Portugal. O que motivou a criação deste programa pioneiro e por que considera que agora é o momento certo?

Sónia Dias (SD) – A criação desta licenciatura em Global Public Health (Saúde Pública Global) resulta de uma visão estratégica clara dos desafios estruturais que marcam o mundo contemporâneo e, em particular, a forma como esses desafios estão a transformar profundamente a saúde pública e os sistemas de saúde. Vivemos num contexto caracterizado por crises sanitárias recorrentes, alterações climáticas, elevado envelhecimento das populações, degradação da saúde mental, aumento persistente das desigualdades sociais e uma pressão crescente sobre os sistemas de saúde, que coloca em causa a sua sustentabilidade, capacidade de resposta e legitimidade social. Todas estas transformações requerem uma mudança estrutural no modo como a saúde pública é pensada, organizada e governada à escala global.

Na verdade, constata-se que estes desafios deixaram de ser episódicos ou circunstanciais. São globais, interdependentes e permanentes, atravessam fronteiras e exigem novas formas de pensar, planear e agir em saúde pública. Exigem profissionais com uma base científica sólida, mas também com capacidade de compreender sistemas complexos, antecipar riscos, tomar decisões informadas em contextos de elevada incerteza e atuar na interseção entre ciência, políticas públicas, tecnologia e sociedade.

Na ENSP NOVA e na Universidade NOVA de Lisboa entendemos que este é o momento certo para lançar esta licenciatura porque existe hoje uma convergência clara entre a urgência destes desafios e a maturidade institucional necessária para lhes responder. Há uma nova geração de estudantes que procura formações com propósito, impacto público e uma forte dimensão internacional, e há também uma responsabilidade acrescida das instituições académicas em redefinir o que significa formar profissionais de saúde pública no século XXI. A NOVA, e em particular a ENSP NOVA, reúne condições únicas para liderar este projeto, em associação com a Nova Medical School ou o Instituto de Higiene e Medicina Tropical e envolvimento das demais unidades orgânicas. A Escola tem um percurso consolidado em investigação aplicada, cooperação internacional, formação avançada e proximidade aos decisores, o que nos permite conceber um programa que não se limita à transmissão de conhecimento, mas que prepara os estudantes para compreender e liderar a complexidade dos desafios atuais e futuros da saúde pública.

Portugal ocupa, neste contexto, uma posição particularmente relevante. É um país com um sistema de saúde universal, confrontado com desafios demográficos, organizacionais e financeiros muito significativos, mas, simultaneamente, fortemente ligado a diferentes geografias, culturas e realidades de saúde. Esta posição permite pensar a saúde pública global a partir de experiências concretas, com capacidade de gerar conhecimento aplicado, transferível e com impacto real.

Esta licenciatura representa, por isso, um passo estratégico e coerente no desenvolvimento da ENSP NOVA, em associação com a NMS e o IHMT, e da Universidade NOVA de Lisboa. Um programa que assume, desde o primeiro ciclo, a ambição de formar profissionais orientados para o impacto, para a sustentabilidade dos sistemas de saúde e para a resposta a desafios globais com implicações locais muito concretas. Na nossa visão, esta licenciatura é também um reflexo do futuro da saúde pública e do papel que as universidades devem assumir: formar profissionais capazes de agir com rigor, sentido público e compromisso com soluções mais justas, resilientes e sustentáveis.

HN – O curso é apresentado como interdisciplinar e internacional, envolvendo várias escolas e parceiros, como a Aga Khan University. Como é que esta colaboração se vai refletir na experiência dos estudantes e no currículo?

SD – A interdisciplinaridade e a internacionalização são pilares estruturantes desta licenciatura e refletem-se de forma muito concreta na forma como o curso foi desenhado. Esta colaboração entre a ENSP NOVA, a NOVA Medical School, o IHMT NOVA e parceiros internacionais como a Aga Khan University permite que os estudantes contactem, desde o início, com diferentes perspetivas científicas, culturais e profissionais.

Mais do que uma soma de instituições, estamos a falar de um verdadeiro ecossistema de aprendizagem em Saúde Pública Global, com acesso aos professores mais experientes e peritos em múltiplas áreas das várias unidades orgânicas da NOVA. O currículo cruza saúde pública, medicina, ciências sociais, políticas públicas, sustentabilidade, inovação e governação, sempre com uma forte ligação a contextos reais e a desafios concretos colocados por organizações nacionais e internacionais. Esse ecossistema envolve já mais de uma centena de organizações – da administração pública a organizações internacionais, setor social, empresas e áreas de tecnologia e inovação em saúde – preparadas para contribuir, de forma consistente, para diferentes momentos do percurso formativo.

Para os estudantes, esta abordagem traduz-se numa experiência formativa profundamente enriquecedora: aprender com docentes e especialistas de diferentes áreas e países, trabalhar em equipas multiculturais, participar em projetos internacionais e beneficiar de oportunidades de mobilidade académica. Desde cedo, são expostos a diferentes modelos de sistemas de saúde, níveis de capacidade institucional e contextos socioeconómicos distintos.

Esta lógica permite que a internacionalização não se limite à mobilidade, mas seja vivida de forma contínua ao longo do curso. Consideramos que esta diversidade de perspetivas é essencial para preparar profissionais capazes de atuar num campo global marcado por assimetrias, interdependências e escolhas complexas.

Acresce ainda uma dimensão geográfica particularmente relevante. Através das parcerias da NOVA, esta licenciatura posiciona-se num eixo estratégico Europa–África–Ásia. A Europa surge como espaço natural de enquadramento académico, científico e político; África, através da experiência consolidada de diferentes unidades da Universidade em contextos diversos; e a Ásia, através da parceria com a Aga Khan University, com uma forte presença e intervenção em múltiplas realidades sociais e de saúde. Este eixo permite que os estudantes tenham contacto com realidades muito distintas, desafios epidemiológicos diversos e diferentes modelos de organização dos sistemas de saúde, enriquecendo de forma única a sua formação em Saúde Pública Global.

HN – Um dos focos do programa é a resolução de problemas complexos e globais, com ênfase em áreas como inteligência artificial, sustentabilidade e governação. De que forma é que estes temas serão integrados na formação prática dos estudantes?

SD – Estes temas estão integrados de forma transversal, aplicados ao longo de todo o curso e refletem uma opção estrutural sobre o tipo de profissionais que queremos formar. Não são tratados como áreas autónomas ou tendências emergentes, mas como componentes centrais da forma como os problemas de saúde são hoje compreendidos, analisados e resolvidos em contextos reais. A licenciatura aposta em modelos pedagógicos ativos, como a aprendizagem baseada em problemas, estudos de caso reais, simulações e projetos desenvolvidos em parceria com entidades externas. Esses contributos externos estão presentes desde a definição dos problemas trabalhados em sala de aula até ao desenvolvimento de projetos aplicados e experiências em contexto organizacional, permitindo que os estudantes trabalhem, desde cedo, com desafios reais colocados por organizações que operam em diferentes contextos e geografias. Os estudantes são desafiados a trabalhar com situações concretas, onde existem constrangimentos reais, interesses concorrentes e necessidade de tomar decisões informadas em contextos de incerteza. A estas abordagens juntam-se os estágios curriculares, plenamente integrados no percurso formativo e realizados em organizações nacionais e internacionais, em diferentes setores. Estes estágios permitem consolidar aprendizagens, aprofundar competências e reforçar uma formação marcadamente orientada para a prática. A inteligência artificial, a ciência de dados e a saúde digital são abordadas como ferramentas essenciais à compreensão de fenómenos complexos, antecipação de cenários e de apoio à decisão em saúde pública, sempre acompanhadas de uma reflexão ética, crítica e regulatória. A sustentabilidade e a governação surgem associadas à análise de políticas públicas, à organização dos sistemas de saúde e à resposta a crises prolongadas.

O objetivo é os estudantes não só adquiram conhecimento e compreendam estes domínios, mas acima de tudo que desenvolvam competências para transformar conhecimento em ação, aplicando-o de forma crítica, responsável e contextualizada na criação de soluções inovadoras para desafios reais, em diferentes contextos sociais e geográficos, preparando-se para atuar num mundo cada vez mais global.

HN – A licenciatura está acreditada pela APHEA, o que garante padrões europeus de qualidade. Que impacto espera que este reconhecimento tenha na atração de estudantes internacionais e na projeção global do curso?

SD – A acreditação pela Agency for Public Health Education Accreditation (APHEA) representa um selo de qualidade particularmente relevante no contexto europeu e internacional. Resulta de um processo de avaliação exigente, conduzido por especialistas independentes, que reconhece a robustez científica, a coerência curricular e a orientação internacional do programa.

Este reconhecimento reforça a credibilidade do curso junto de estudantes, instituições e empregadores de todo o mundo e funciona como um importante fator de atratividade internacional. Facilita a comparabilidade com outras ofertas formativas europeias e cria um quadro de confiança quanto à qualidade e ao rigor académico da formação.

Do ponto de vista estratégico, a acreditação contribui para integrar a licenciatura num ecossistema internacional de formação em saúde pública que partilha princípios comuns de qualidade, governação académica e organização curricular. Esse enquadramento favorece a articulação com outras instituições acreditadas com elevada credibilidade, apoia o desenvolvimento de parcerias robustas e cria condições mais sólidas para a mobilidade de estudantes e docentes, contribuindo para a projeção internacional do curso de forma sustentada. Esta acreditação contribui para a projeção global da licenciatura e para o reforço do posicionamento de Portugal como um país capaz de oferecer formação de referência em Saúde Pública Global, integrada em redes europeias e internacionais de excelência.

HN – Os diplomados serão preparados para atuar em diversos setores, desde organizações internacionais a startups. Que tipo de perfil profissional pretende moldar e que nichos de emprego identifica como mais promissores?

SD – Esta licenciatura foi pensada para formar um novo perfil profissional em Saúde Pública Global. Profissionais com uma base científica sólida, mas também com competências transversais cada vez mais valorizadas, como pensamento crítico, análise de sistemas complexos, atuação em contextos multiculturais, comunicação estratégica em cenários de elevada incerteza ou situações de crise, bem como competências de liderança e governação.

Os diplomados estarão preparados para atuar em organizações internacionais, agências multilaterais, instituições públicas, empresas tecnológicas, startups, centros de investigação, fundações e organizações da sociedade civil. Nichos particularmente promissores incluem o desenho, análise e avaliação de políticas públicas, a gestão de programas de saúde global, a saúde digital, a análise de dados, a comunicação em saúde, a sustentabilidade dos sistemas de saúde e a mediação entre inovação, governação e impacto social. Importa sublinhar que muitas destas funções estão ainda em consolidação ou em transformação. Por isso, mais do que formar para cargos específicos, esta licenciatura forma para trajetórias profissionais dinâmicas, marcadas pela capacidade de adaptação, aprendizagem contínua e intervenção em contextos complexos.

HN – Portugal tem vindo a afirmar-se como um hub de inovação em saúde e políticas públicas. De que maneira é que esta licenciatura poderá reforçar esse posicionamento e contribuir para a resiliência dos sistemas de saúde?

SD – Esta licenciatura reforça o posicionamento de Portugal como um hub de inovação ao formar profissionais capazes de ligar conhecimento científico, inovação tecnológica e ação política. Esta licenciatura ao apostar numa formação orientada para problemas reais, com forte ligação à investigação aplicada e à cooperação internacional, está a contribuir para o desenvolvimento de soluções que podem ser testadas, adaptadas e escaladas.

Este posicionamento nacional sairá igualmente reforçado pela criação do Centro de Inovação em Saúde Pública que a ENSP NOVA se encontra a desenvolver em parceria com a IMS, e estreita articulação com os seus parceiros. O centro, concebido para funcionar em rede a nível nacional e internacional, assume a tecnologia como infraestrutura crítica da inovação em saúde pública, integrando análise de dados, soluções digitais, simulação, apoio à decisão e novos modelos organizacionais. Permitirá desenhar, testar e avaliar políticas e soluções em ambientes controlados, antes da sua eventual adaptação ou escala, promovendo uma lógica de inovação responsável, informada por evidência, da qual os estudantes beneficiarão diretamente.

O programa contribui para afirmar o país como um espaço capaz de formar talento, produzir conhecimento aplicado e desenvolver soluções organizacionais e tecnológicas com relevância internacional. Ao atrair estudantes e parceiros nacionais e internacionais, o curso promove a circulação de conhecimento e aprofunda a integração de Portugal em redes globais de inovação, saúde pública e governação. Este ecossistema contribui diretamente para a capacidade de antecipar riscos, responder a crises, promover a saúde pública e reforçar a resiliência e sustentabilidade dos sistemas de saúde.

HN – Olhando para o futuro, quais são as principais ambições da ENSP NOVA e dos parceiros para este curso nos próximos cinco anos?

SD – Nos próximos cinco anos, a ambição da ENSP NOVA e dos seus parceiros é consolidar esta licenciatura como uma referência nacional e internacional em Saúde Pública Global, integrada numa visão mais abrangente e com forte sentido de missão, de crescimento, posicionamento e impacto da Escola.

A Escola ocupa hoje um lugar reconhecido no espaço europeu e internacional da saúde pública e da gestão da saúde. A presença consistente nos boards de decisão nas principais redes internacionais, a participação ativa e, em vários casos, a liderança de consórcios internacionais, bem como o papel crescente enquanto parceira credível na definição e implementação de políticas globais, refletem uma maturidade institucional que liga conhecimento científico à ação pública de forma consequente. Recorde-se, a título de exemplo, que a Escola conta atualmente com dois Centros Colaboradores da Organização Mundial da Saúde, o Centro Colaborador da OMS para a Educação, Investigação e Avaliação da Segurança e Qualidade em Saúde e o Centro Colaborador da OMS para a Gestão da Saúde. Lidera ainda diversas redes nacionais e internacionais em áreas de inovação, como a Ciência da Implementação e a Prescrição Social.

A solidez construída em campos clássicos da saúde pública e da gestão da saúde tem sido progressivamente complementada por uma aposta consistente em áreas emergentes, como a ciência dos dados, a saúde digital, o foresight, a ciência comportamental e o empreendedorismo em saúde. Esta combinação entre continuidade e renovação permite hoje à Escola integrar investigação rigorosa, aplicação prática e cooperação internacional em domínios que se situam nas fronteiras mais avançadas da prática em saúde pública, e continuará a estruturar o desenvolvimento da licenciatura ao longo do tempo.

Queremos aprofundar a articulação entre ensino, investigação aplicada e inovação, envolvendo os estudantes em projetos com impacto real, em colaboração com decisores políticos, organizações internacionais, comunidades e parceiros académicos. Ao mesmo tempo, pretendemos reforçar a cooperação global, expandindo parcerias estratégicas e oportunidades de mobilidade, estágios e projetos conjuntos.

No essencial, esta licenciatura reflete a forma como a ENSP NOVA entende hoje a saúde pública: uma prática exigente, orientada para impacto, capaz de integrar conhecimento, governação e ação em contextos complexos e em permanente transformação.

Entrevista MMM

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