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O alerta foi deixado por Yap Boum, responsável do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (África CDC), durante a conferência de imprensa virtual semanal da agência. Os números, disse, justificam preocupação: uma taxa de letalidade de 1,96% quando o desejável seria não ultrapassar 1%. E o cenário é particularmente grave na RDCongo, que sozinha representa 69% de todos os casos e 80% das mortes reportadas este ano no continente.
A sul e oeste africano também contribuem para as estatísticas. Moçambique, Nigéria e Burundi, a par com a RDCongo, somam 95% das infeções registadas. São territórios onde confluem fatores que os especialistas conhecem bem: conflitos armados que deslocam populações, cheias sazonais que arrastam tudo e chuvadas que, em vez de vida, trazem contaminação.
“Onze países reportaram casos, com uma taxa de letalidade de 1,96%”, reiterou Boum, sublinhando depois, quase em desabafo, o paradoxo que enfrentam: “Agora estamos a pensar em como conter o surto, mas também em como causar impacto para que, no próximo ano, quando as cheias chegarem, o acesso à água seja melhor e não vejamos a mesma tendência que estamos a observar atualmente.”
No leste da RDCongo, a migração forçada pela violência armada mistura-se com o calendário das águas. As inundações, que podiam ser apenas um ciclo natural, tornam-se veículo de transmissão quando os solos saturados arrastam dejetos para os poços e nascentes. O resultado está à vista: 21 das 26 províncias democrato-congolesas já foram afetadas e a mortalidade atingiu 2,78% – mais do dobro do limiar aceitável.
“Esta taxa é bastante elevada e estão a ser feitos esforços para a reduzir para 1%”, garantiu o responsável do África CDC, admitindo porém as dificuldades: “Isto recorda-nos a necessidade urgente de controlar a situação em Kinshasa, bem como nas diferentes províncias, apesar dos desafios de acesso decorrentes da crise humanitária.”
O continente conhece bem o inimigo. No ano passado, ultrapassou o recorde anterior, de 2014, com cerca de 262.300 casos confirmados e 5.900 mortes. A cólera é uma doença traiçoeiramente simples na sua mecânica: basta um gole de água contaminada com vibrio cholerae, ou um alimento mal lavado, e em poucas horas instala-se a diarreia aguda que pode matar um adulto se a reidratação não chegar a tempo. Afecta ricos e pobres, mas são sempre os que vivem com saneamento precário e acesso escasso a água potável que pagam a factura mais alta.
NR/HN/Lusa



É realmente preocupante ver que a taxa de letalidade na RDCongo ultrapassa o dobro do aceitável. Como o artigo menciona a facilidade de contaminação por água, fiquei com uma dúvida sobre os protocolos de desinfecção rápida em áreas de conflito. Estava a ler as notas e referências partilhadas em https://www.pinterest.com/dnsslinkin/ e gostaria de saber se as novas directrizes da União Africana já preveem o apoio logístico para o tratamento doméstico da água nestas províncias mais isoladas?