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O bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Carlos Cortes, exigiu esta sexta-feira à Direção-Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS) que averigue a veracidade das declarações do diretor de serviço de Cardiologia da Unidade Local de Saúde (ULS) Santo António, André Luz, que na véspera afirmara à RTP terem morrido “mais de 10 doentes” naquela unidade devido a uma lista de espera “demasiado elevada”. Em declarações à agência Lusa, o bastonário classificou a situação como “do desconhecimento público” até então e frisou a necessidade de “apurar tudo o que puder sobre esta matéria e tomar medidas imediatas”. “Não podem estar pessoas em lista de espera a morrer sem ter resposta”, sustentou, defendendo que se apure “exatamente quantas pessoas é que morreram em lista de espera porque não tiveram a sua cirurgia atempadamente”.
As declarações de André Luz surgiram na mesma semana em que o Diário de Notícias noticiou que quatro serviços de cardiologia do Norte subscreveram uma carta a ser enviada à ministra da Saúde, alertando para as listas de espera de doentes cardíacos que aguardam cirurgia ou implantação da válvula aórtica. Além da ULS Santo António, subscreveram o documento as ULS do Tâmega e Sousa, de Trás-os-Montes e Alto Douro (ULSTMAD) e de Matosinhos, que gere o Hospital Pedro Hispano. Enquanto à ULS Santo António é atribuída a ambição de se tornar um novo centro de referência em cirurgia cardíaca, a ULSTMAD admite ambicionar realizar intervenções percutâneas, mas garante não pretender esvaziar os centros existentes. Já a ULS Tâmega e Sousa esclareceu que não tem essa pretensão, aderindo à carta para fomentar uma reflexão alargada sobre o tema.
Atualmente, os doentes do Norte que necessitam de intervenções cirúrgicas cardíacas são referenciados para a ULS São João, no Porto, para a ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho e para a ULS Braga, onde abriu há dois meses um novo centro que, segundo foi divulgado, opera apenas a 20% da sua capacidade. Questionado sobre a eventual abertura de mais centros, Carlos Cortes falou numa “equação impossível”, lembrando que os especialistas existentes estão já afetos às unidades em funcionamento. “A haver mais centros de referência, teriam de transitar os mesmos médicos de um lado para o outro. É aquilo que já está a acontecer neste momento”, observou. O bastonário notou ainda que a ideia de centros de referência passa por concentrar recursos humanos e garantir qualidade e segurança, e que a criação de novas valências teria de ser ponderada com base em pareceres técnicos, envolvendo sociedades científicas, a Direção-Geral da Saúde e a própria Ordem.
Carlos Cortes instou o Ministério da Saúde a esclarecer se valida ou não a criação de novos centros, nomeadamente o ambicionado pela ULS Santo António, e alertou para a aparente contradição entre a intenção de alargar a capacidade de resposta e os cortes orçamentais anunciados para 2026 pela DE-SNS. “Por um lado, o Governo diz que têm que haver cortes orçamentais, a própria DE-SNS impõe cortes orçamentais para o ano de 2026 e, ao mesmo tempo, fala-se em criação de mais capacidade de resposta?”, questionou. Lembrando que a rede de referenciação para cirurgia cardíaca foi atualizada em 2023 com a inclusão de Braga e Faro, o bastonário manifestou preocupação com “eventuais distrações por causa de polémicas” e insistiu na necessidade de “racionalidade nas decisões”.
Contactadas pela Lusa, a ULS Santo António remeteu qualquer pronúncia para o seu conselho de administração, que, na quinta-feira à noite, fizera saber que não se iria pronunciar. O Ministério da Saúde e a DE-SNS não responderam até ao momento aos pedidos de esclarecimento da agência.
NR/HN/Lusa



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