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Escrevo como paliativista.
Sem nome, porque esta experiência não é apenas minha. É de muitos.
A catástrofe atingiu-nos a todos — pessoas, famílias, profissionais e instituições. É um tempo de enorme adversidade, em que se exige adaptação constante, compromisso e humanidade. As instituições respondem com os meios disponíveis, num contexto excecional e imprevisível, procurando estar à altura do desafio que nos atravessa a todos.
Neste cenário, os profissionais de Cuidados Paliativos estão onde sempre estiveram: junto de quem mais precisa.
Sabemos que, mesmo em circunstâncias normais, o acesso aos Cuidados Paliativos é difícil. Em contextos de catástrofe, essa dificuldade agrava-se de forma muito significativa, sobretudo numa região onde ainda não existem equipas suficientes para garantir uma cobertura total da população com necessidades paliativas. O que já era frágil tornou-se ainda mais exigente, tanto para quem precisa de cuidados como para quem os presta.
Ainda assim, continua a haver cuidado.
Mesmo com acessos difíceis, sem comunicações, com meios limitados e um cansaço físico e emocional acumulado, há presença, escuta, conforto e decisões difíceis tomadas com respeito e humanidade. Cuida-se no limite.
O que raramente se vê é o custo desse cuidado.
Os profissionais de Cuidados Paliativos também estão a viver perdas. Também têm preocupações pessoais, famílias afetadas, medos, luto e exaustão. Ainda assim, entram todos os dias no sofrimento do outro, sustentando dor alheia quando a própria ainda está por resolver.
Há — e houve — momentos profundamente exigentes. Situações limite, decisões tomadas sob grande pressão emocional. Não por falta de cuidado, mas porque, em cenários de catástrofe, o sofrimento intensifica-se e os recursos nunca são suficientes para tudo o que é necessário.
Apesar disso, dá-se conforto.
Dá-se dignidade.
Dá-se presença.
Esta experiência torna ainda mais claro o papel insubstituível dos Cuidados Paliativos em contextos de crise. Não como resposta acessória, mas como cuidado essencial quando a vulnerabilidade se multiplica. Falar de dignidade implica reconhecer quem cuida, proteger emocionalmente os profissionais e garantir condições para que possam continuar a fazer aquilo que fazem melhor: estar com o outro, mesmo no meio do caos.
Esta carta não é uma crítica.
É um reconhecimento.
É memória.
E é um apelo sereno para que se reconheça que os Cuidados Paliativos não são um extra, mas uma responsabilidade essencial do sistema de saúde. Não podem continuar fora das prioridades nem ausentes da estratégia, sobretudo quando se pede aos profissionais que cuidem no limite, mesmo enquanto atravessam as suas próprias perdas.


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