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O presidente da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), António Saraiva, compareceu esta quinta-feira na comissão parlamentar de inquérito ao INEM para dar o seu testemunho sobre a relação da instituição com o instituto público. E os números que levou foram claros: o Estado português deve mais de 1,5 milhões de euros à CVP pelos serviços prestados no âmbito do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM). Um valor, explicou, que corresponde a cerca de três meses de faturação.
“Apesar dos atrasos nos pagamentos das prestações de serviços realizadas e reconhecidas pelo INEM, que nesta altura ultrapassam o valor de 1,5 milhão de euros, a CVP nunca suspendeu os serviços que lhe foram solicitados”, afirmou António Saraiva, sublinhando que a decisão de manter as ambulâncias na rua se prendeu com um “sentido de responsabilidade institucional e compromisso com as populações”.
Na sala da comissão, o responsável fez questão de enquadrar o peso específico da CVP no tabuleiro da emergência médica em Portugal. A instituição assegura “aproximadamente 6 a 8% do total de serviços nacionais de emergência pré-hospitalar”. Em 2025, traduziu-se em cerca de 88 mil intervenções. São números que, nas entrelinhas, ajudam a perceber o impacto que uma eventual paralisação poderia ter tido.
A dívida agora revelada não é um dado menor. Atinge uma dimensão que, para muitas entidades, seria insustentável. Mas António Saraiva foi perentório: a CVP não parou e não reduziu a resposta, mesmo com o dinheiro em atraso. Durante a greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, entre 30 de outubro e 4 de novembro de 2024, a instituição não registou “qualquer ocorrência extraordinária” que limitasse a sua atuação. Um período negro do socorro em Portugal, lembre-se, que ficou marcado por 12 mortes, três delas associadas a atrasos no socorro, segundo a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS).
O presidente da CVP deixou, ainda assim, um reparo que funcionou quase como uma defesa preventiva. A instituição que dirige, explicou, “não define prioridades operacionais, não regula recursos, não decide tempos de resposta e não controla o financiamento estrutural do sistema”. A mensagem era dirigida aos deputados: a CVP está no terreno, cumpre o que lhe é pedido, mas não tem nas mãos as alavancas do sistema.
Num tom que oscilou entre a satisfação pelo dever cumprido e a exigência de melhores condições, António Saraiva disse que a CVP atua “com sentido de missão e responsabilidade institucional”, mas precisa de “previsibilidade, sustentabilidade e equidade” para garantir a continuidade do serviço público. A instituição, sublinhou, é uma entidade auxiliar dos poderes públicos e agente de proteção civil, “de base voluntária”, mas isso não a exime de ter de pagar contas no final do mês.
A comissão de inquérito, que junta 24 deputados, foi criada em julho do ano passado por iniciativa da IL. O objetivo é apurar responsabilidades políticas, técnicas e financeiras na atual situação do INEM, com especial atenção à greve do final de 2024 e à relação das tutelas com o instituto desde 2019. António Saraiva mostrou-se disponível para colaborar em soluções estruturais, com “espírito construtivo e orientado para o interesse público”, mas deixou no ar a pergunta que muitos farão: até quando a CVP conseguirá segurar as pontas sem ver a cor do dinheiro?
NR/HN/Lusa20



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