Dinaminas: as proteínas “pinças” que protegem o núcleo celular do envelhecimento

20 de Fevereiro 2026

Investigação internacional liderada pela Universidade de Coimbra revelou que proteínas conhecidas por atuarem como "pinças" moleculares desempenham também função crucial na proteção do núcleo celular e na estabilidade do genoma, processos determinantes para a prevenção de doenças associadas ao envelhecimento

Um estudo publicado esta semana por uma equipa de investigadores do Grupo de Envelhecimento do Cérebro do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento (MIA-Portugal) da Universidade de Coimbra (UC) veio lançar nova luz sobre mecanismos celulares até agora pouco compreendidos. A investigação, que contou com a participação de universidades do Reino Unido, Singapura e Estados Unidos, demonstrou que as dinaminas – uma família de proteínas – são essenciais para a integridade da membrana que envolve o núcleo das células.

O trabalho, que teve como primeira autora a investigadora Célia Aveleira, partiu de uma constatação simples em laboratório: células privadas destas proteínas apresentavam anomalias evidentes na sua estrutura nuclear. “Quando estas proteínas estão ausentes, a estrutura do núcleo torna-se irregular, os sistemas de reparação de ADN são afetados e o ADN danificado acumula-se na célula, representando uma ameaça à estabilidade celular”, explicou a investigadora do MIA-Portugal.

O núcleo funciona como o centro de comando da célula, albergando e protegendo o material genético. Para que a célula se mantenha saudável, este orgânulo tem de preservar a sua forma, assegurar a integridade da membrana que o delimita e reparar eficientemente as lesões que vão ocorrendo no ADN. A perturbação de qualquer um destes processos, sublinha a UC em comunicado, está intimamente associada ao envelhecimento e ao surgimento de patologias como doenças neurodegenerativas e cancro.

Até agora, as dinaminas eram maioritariamente conhecidas pelo seu papel como “pinças” moleculares que cortam vesículas – pequenas estruturas de transporte – da membrana celular. O que os investigadores descobriram foi uma função inteiramente distinta: estas proteínas trabalham em conjunto com os microtúbulos, uma espécie de andaime interno que dá forma à célula e por onde circulam diversas substâncias. “Pode-se pensar nos microtúbulos como os alicerces da célula”, comparou Célia Aveleira, acrescentando que as dinaminas cooperam com essas estruturas para manter a estabilidade nuclear e apoiar a manutenção do genoma.

A investigadora principal do grupo, Ira Milosevic, que acumula funções na Universidade de Oxford, sublinhou o alcance dos resultados. “Ao identificar as dinaminas como reguladoras da integridade nuclear e da estabilidade do genoma, o nosso trabalho oferece novas perspetivas sobre os mecanismos que previnem patologias relacionadas com o envelhecimento”, afirmou. Para Milosevic, as descobertas têm implicações que extravasam a biologia celular fundamental, podendo vir a influenciar a investigação aplicada em áreas como as doenças neurodegenerativas, onde a acumulação de danos no ADN é um traço característico.

O consórcio internacional envolveu, para além do MIA-Portugal e da Universidade de Oxford, a Universidade de Sheffield, a Universidade Tecnológica de Nanyang e a Universidade Estadual da Pensilvânia. Os trabalhos decorreram ao longo dos últimos anos e os resultados foram agora validados pela comunidade científica, abrindo caminho para que se possa compreender melhor por que razão as células envelhecem e de que forma esse processo pode ser modulado.

A equipa portuguesa, integrada no Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia da UC, pretende agora explorar se a disfunção destas proteínas poderá estar na origem de algumas doenças humanas ainda mal compreendidas. Há já suspeitas, segundo os investigadores, de que mutações em genes que codificam dinaminas possam estar ligadas a formas raras de neurodegeneração precoce.

O estudo, cujo acesso pode ser consultado através do DOI 10.1016/j.celrep.2026.02.045, representa um avanço significativo na compreensão dos mecanismos que mantêm as células funcionais ao longo do tempo. Para quem estuda o envelhecimento, perceber como se preserva a integridade do núcleo é meio caminho andado para desenhar estratégias que atrasem ou minimizem os efeitos do tempo sobre o organismo.

NR/HN/Lusa

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