“Duplicar meios para quê?” São João questiona necessidade de novo centro de cirurgia às portas do Porto

20 de Fevereiro 2026

O diretor da Cirurgia Cardiotorácica da ULS São João, Adelino Leite Moreira (na imagem), advertiu esta quinta-feira que a criação de mais uma unidade de referência na região Norte pode fragmentar equipas e comprometer os serviços atuais. A reação surge após quatro hospitais do Norte terem subscrito uma carta a pedir respostas para as listas de espera

O responsável pelo serviço de Cirurgia Cardiotorácica da Unidade Local de Saúde São João, no Porto, manifestou esta quinta-feira preocupação com o impacto que a eventual abertura de um novo centro de referência na área metropolitana do Porto poderia ter nos serviços já existentes. Em declarações à Lusa, Adelino Leite Moreira defendeu que, caso haja verba disponível para investimento, a prioridade deveria ser o reforço das unidades em funcionamento, em vez da criação de novas estruturas.

“A abertura de um novo centro pode comprometer seriamente o funcionamento dos centros atualmente em funcionamento, sendo certo que, se há disponibilidade financeira para investir nesta área, acho que é muito mais custo efetivo investir nos centros já existentes”, afirmou.

O cirurgião ressalvou que a sua posição “não visa as ambições de nenhuma ULS em particular”, mas sim o risco de uma “dispersão comprometedora de recursos humanos”. Leite Moreira questionou ainda a lógica de concentração geográfica de meios: “Faz sentido ter três centros de prevenção com raio de 10 quilómetros com seis cirurgiões por noite e por dia na região do Porto?”.

As declarações surgem depois de o Diário de Notícias ter noticiado que quatro hospitais do Norte — ULS Santo António, ULS Tâmega e Sousa, ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro e ULS de Matosinhos — subscreveram uma carta dirigida à ministra da Saúde. No documento, os serviços de cardiologia alertam para as listas de espera de doentes a necessitar de cirurgia ou de implantação da válvula aórtica. À ULS Santo António tem sido atribuída a intenção de vir a acolher um centro de referência, ainda que as outras unidades envolvidas neguem ambições concretas, defendendo antes uma reflexão alargada sobre a resposta nesta área.

O diretor do São João recordou que a atual rede de referenciação foi definida em 2023, após um trabalho que considerou exaustivo e profissional, e que resultou na abertura recente de um centro em Braga. “Entendeu-se que se justificava um novo centro. A abertura desse novo centro, pelos números, pela realidade dos doentes que temos, será capaz de responder às necessidades do Norte”, sustentou.

Apesar de aberto há cerca de dois meses, o centro bracarense está a funcionar com limitações de pessoal, a 20% da capacidade. Leite Moreira acredita que, quando estiver na plenitude, conseguirá dar resposta às listas de espera, mas sublinhou que o São João já cedeu dois cirurgiões seniores para viabilizar a nova unidade. “A saída de mais um que fosse vai comprometer a nossa capacidade de resposta”, alertou, realçando que, apesar da cedência, o hospital portuense conseguiu aumentar em 6% o número de doentes operados no último ano.

Numa posição paralela, o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho, que também integra a rede de centros de referência, considerou que a criação de um novo polo na ULS Santo António “amputaria capacidade aos centros existentes”. A Lusa procurou obter reações junto de outras ULS da região Norte e da Direção-Executiva do SNS, estando a aguardar resposta.

NR/HN/Lusa

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

DGS regista subida da mortalidade fetal e infantil em 2024

Portugal registou em 2024 aumentos nos óbitos de fetos com mais de 22 semanas de gestação e nos óbitos de crianças nascidas vivas que faleceram com menos de um ano, segundo relatório da Direção-geral de Saúde (DGS).

VI Congresso da ATA debate saúde e movimento em Amarante

Auditório do Centro Cultural recebe, a 10 e 11 de abril de 2026, especialistas de várias áreas para refletir sobre o papel da atividade física no bem-estar biopsicossocial, numa organização da Associação Território de Afetos

APIFARMA debate futuro da vacinação em conferência no CCB

A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA) promove no dia 28 de abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a conferência “Preparar o Futuro | O Valor da Vacinação em Saúde”. O encontro, que assinala a Semana Europeia da Vacinação, conta com a apresentação de um estudo inédito sobre a perceção do valor das vacinas em Portugal

Doença silenciosa ameaça ser quinta causa de morte em 2050

A doença renal crónica, que muitas vezes não dá sinais, pode tornar-se a quinta principal causa de morte a nível mundial em 2050. O alerta foi deixado esta terça-feira pela diretora do Serviço de Nefrologia da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, a dois dias das comemorações do Dia Mundial do Rim e do 50.º aniversário da unidade

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights