Farmacêuticos residentes apontam falhas na formação e ausência de apoio financeiro no SNS

20 de Fevereiro 2026

A formação de farmacêuticos residentes no Serviço Nacional de Saúde atravessa um período de contestação silenciosa, mas sustentada por dados. Inquéritos realizados entre 2023 e 2025 pela Associação Portuguesa de Farmacêuticos Residentes (APFR) indicam que, para muitos, o percurso de especialização fica aquém do esperado. A APFR prepara-se para apresentar os resultados esta quinta e sexta-feira, no Porto, durante as Jornadas de Farmácia Hospitalar

Os números recolhidos junto de 463 profissionais que entraram nos concursos da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) entre 2023 e 2025 mostram um padrão de descontentamento que se replica em várias frentes. A avaliação global, feita numa escala de zero a quatro, coloca indicadores como a existência de um mecanismo de notificação de incidentes no processo formativo em valores residuais: 0,71 no último ano. A perceção sobre a clareza dos critérios de avaliação também não ultrapassa a mediana, com os inquiridos a classificarem o conhecimento que detêm sobre o modelo entre 1,72 e 1,91 ao longo do período analisado.

Um dos aspetos que mais sobressai nas respostas prende-se com as condições base para a aprendizagem. A afirmação de que o horário laboral contempla tempo dedicado a estudo autónomo foi consistentemente pontuada abaixo de 1,5. A ausência de períodos reservados à formação dentro do serviço é apontada como uma limitação prática, mas os comentários recolhidos sugerem que o problema é mais amplo. A falta de planeamento e calendarização dos módulos formativos, a reduzida articulação entre instituições para a realização de estágios parcelares e a inexistência de apoio financeiro ou logístico para deslocações ou participação em atividades científicas são referidas como entraves recorrentes.

A interlocução entre as entidades formadoras também não escapa às críticas. Questionados sobre o fluxo de partilha de informação e boas práticas entre instituições que acolhem residentes, os valores mantiveram-se abaixo de 1,6. A perceção de que a comunicação institucional é frágil acentua a sensação de isolamento dos profissionais durante o período formativo. Em 2024, a APFR enviou uma carta aberta ao Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, a reivindicar medidas concretas, entre as quais o aumento da remuneração e a integração efetiva da residência na carreira. A comparação com os médicos internos e com a realidade europeia é feita pelos próprios residentes, que consideram o valor atual desajustado.

A incerteza quanto ao futuro profissional depois de concluída a especialidade emerge nas respostas como uma fonte adicional de tensão. A abertura de vagas desarticulada das necessidades nacionais e a contratação de não-especialistas são vistas como fatores que desvalorizam o percurso realizado e comprometem a retenção de talento no SNS. Nos comentários, há quem sugira que a Ordem dos Farmacêuticos e a ACSS deveriam assumir um papel mais ativo na verificação da idoneidade das instituições e no acompanhamento do cumprimento dos programas formativos.

A necessidade de uma intervenção estruturada é o tom que percorre as conclusões do estudo. A manutenção de vários indicadores abaixo do limiar considerado aceitável ao longo de três anos consecutivos é entendida como um sinal de que as fragilidades não são pontuais, mas sim estruturais. A APFR tem procurado responder com iniciativas próprias, como o curso de hematologia laboratorial ou os inquéritos anuais de satisfação, mas sublinha que a resolução dos problemas identificados depende de um esforço coordenado entre as instituições com responsabilidade na formação. A apresentação pública dos resultados no Porto surge, nesse contexto, como mais um passo para dar visibilidade a um percurso profissional que muitos residentes descrevem como marcado pela instabilidade e pela falta de reconhecimento.

PR/HN/MM

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