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A APEF veio a público esta sexta-feira manifestar uma preocupação extrema com o chamado “Desafio do Paracetamol”, fenómeno que circula em plataformas como o TikTok e que consiste em ingerir deliberadamente doses elevadas do analgésico. Em comunicado, a associação científica adverte que a prática, aparentemente inofensiva para os mais jovens, pode levar a lesões hepáticas graves, irreversíveis e até à morte em poucas horas.
Mónica Sousa, membro da direção da APEF, sublinhou que os profissionais envolvidos em transplante hepático conhecem bem o cenário devastador da insuficiência hepática aguda. “O que para muitos jovens pode parecer uma brincadeira inofensiva pode, em poucas horas, transformar-se numa emergência médica com desfecho fatal ou na necessidade de um transplante de fígado”, afirmou. A especialista explicou que o paracetamol, embora seguro nas doses terapêuticas, tem uma margem estreita: a sobredosagem provoca danos no fígado que podem ser irreversíveis.
Um dos aspectos mais traiçoeiros, segundo a médica, é a ausência de sintomas imediatos. Nas primeiras 24 a 48 horas, náuseas ou dores abdominais são ligeiras ou inexistentes, criando uma falsa sensação de segurança enquanto o fígado sofre destruição progressiva. “Quando os sinais clínicos se tornam evidentes, pode já ser demasiado tarde”, alertou. A administração precoce de um antídoto é crucial, mas depende da rapidez com que se procura ajuda.
A associação lembra ainda que o consumo de álcool, comum entre adolescentes, agrava a toxicidade do paracetamol. Nesse sentido, a APEF apela a pais e educadores para que falem abertamente com os jovens sobre os riscos dos desafios virais, guardem os medicamentos fora do alcance e estejam atentos a alterações de comportamento. Aos profissionais de saúde, pede vigilância na dispensa de medicamentos a menores e suspeição perante quadros de intoxicação em adolescentes, mesmo sem sintomas evidentes. Já às plataformas digitais, exige-se responsabilidade na monitorização e remoção de conteúdos que incentivem comportamentos autolesivos.
O fenómeno não é exclusivo de Portugal. Nos últimos meses, vários países europeus registaram casos. Em Espanha, o Hospital Materno-Infantil de Málaga admitiu adolescentes entre os 11 e os 14 anos com intoxicação grave. Em França, a Agência Nacional de Segurança do Medicamento (ANSM) emitiu um alerta formal, recordando que a sobredosagem de paracetamol é a principal causa de transplante hepático de origem medicamentosa no país. A Alemanha, a Bélgica, a Suíça e a Eslovénia também divulgaram comunicados conjuntos. No Reino Unido, onde a venda de paracetamol sem receita é restrita, jovens de 15 a 17 anos foram hospitalizados após participar no desafio. Nos Estados Unidos, em 2023, um adolescente de 13 anos morreu na sequência de um desafio semelhante.
A APEF saúda e subscreve o alerta do bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, que destacou o perigo do silêncio da intoxicação. A associação reforça as orientações sobre doses seguras e limites de toxicidade, insistindo que uma conversa hoje pode salvar uma vida amanhã.
Sobre a APEF: A Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado é uma associação científica sem fins lucrativos que reúne profissionais de saúde dedicados às doenças do fígado e vias biliares. Mais informações em www.apef.com.pt.
PR/HN/MM



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