Médicos do maior hospital do centro de Moçambique em greve ao trabalho extra

20 de Fevereiro 2026

Os médicos residentes do Hospital Central da Beira anunciaram uma paralisação do trabalho extraordinário por tempo indeterminado, a partir de segunda-feira, exigindo o pagamento de horas extras em atraso há mais de dois anos e meio

A decisão consta de uma carta entregue à direção da unidade, à qual a Lusa teve acesso. O documento é assinado por um coletivo de cerca de 60 médicos, que denunciam a falta de pagamento dos serviços prestados em urgências, rondas de fim de semana e feriados. Segundo os profissionais, a dívida acumula-se há mais de 30 meses, uma situação que descrevem como insustentável.

No texto, os médicos referem o desgaste físico e emocional provocado pela carga horária nas urgências — onde chegam a cumprir turnos de 24 horas — e o impacto económico negativo, uma vez que suportam custos de deslocação e alimentação sem qualquer contrapartida financeira. “Após vários encontros com a direção do hospital percebeu-se a falta de clareza e para quando o pagamento de horas extras de forma corrente aos médicos residentes provenientes de outras orgânicas”, lê-se na carta enviada ao diretor-geral.

Esta não é a primeira vez que o tema tensione o ambiente no HCB. Em outubro do ano passado, o porta-voz do hospital, Bonifácio Cebola, assegurara que a regularização dos pagamentos estava em curso. Na altura, disse que o dinheiro já se encontrava desembolsado e refletido na plataforma financeira da unidade, atribuindo os atrasos a questões burocráticas ligadas às unidades de origem dos profissionais e às transferências governamentais. A promessa, porém, não se concretizou.

A paralisação surge num contexto mais amplo de agitação laboral no setor da saúde em Moçambique. A Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), que representa cerca de 65 mil trabalhadores, prolongou na segunda-feira uma greve por mais 30 dias. A associação alega que, desde janeiro, mais de 725 pessoas morreram devido à falta de condições de atendimento nas unidades sanitárias, num período marcado pela paralisação em protesto contra o não pagamento integral do 13.º vencimento.

O ministro da Saúde, reagindo ao anúncio da extensão da greve, classificou a situação como “uma tristeza”, reconhecendo a existência de problemas. Nos últimos três anos, o Sistema Nacional de Saúde tem sofrido pressões recorrentes, com greves convocadas também pela Associação Médica de Moçambique (AMM), que exige melhores condições de trabalho.

Dados da Ordem dos Médicos, avançados à Lusa em junho de 2025, indicam que Moçambique forma anualmente mais de 200 médicos em seis universidades, um número que contrasta com a escassez de profissionais que se seguiu à independência, há cinco décadas. Apesar do aumento de formandos, as condições laborais continuam a gerar tensões recorrentes.

NR/HN/Lusa

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