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A decisão consta de uma carta entregue à direção da unidade, à qual a Lusa teve acesso. O documento é assinado por um coletivo de cerca de 60 médicos, que denunciam a falta de pagamento dos serviços prestados em urgências, rondas de fim de semana e feriados. Segundo os profissionais, a dívida acumula-se há mais de 30 meses, uma situação que descrevem como insustentável.
No texto, os médicos referem o desgaste físico e emocional provocado pela carga horária nas urgências — onde chegam a cumprir turnos de 24 horas — e o impacto económico negativo, uma vez que suportam custos de deslocação e alimentação sem qualquer contrapartida financeira. “Após vários encontros com a direção do hospital percebeu-se a falta de clareza e para quando o pagamento de horas extras de forma corrente aos médicos residentes provenientes de outras orgânicas”, lê-se na carta enviada ao diretor-geral.
Esta não é a primeira vez que o tema tensione o ambiente no HCB. Em outubro do ano passado, o porta-voz do hospital, Bonifácio Cebola, assegurara que a regularização dos pagamentos estava em curso. Na altura, disse que o dinheiro já se encontrava desembolsado e refletido na plataforma financeira da unidade, atribuindo os atrasos a questões burocráticas ligadas às unidades de origem dos profissionais e às transferências governamentais. A promessa, porém, não se concretizou.
A paralisação surge num contexto mais amplo de agitação laboral no setor da saúde em Moçambique. A Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), que representa cerca de 65 mil trabalhadores, prolongou na segunda-feira uma greve por mais 30 dias. A associação alega que, desde janeiro, mais de 725 pessoas morreram devido à falta de condições de atendimento nas unidades sanitárias, num período marcado pela paralisação em protesto contra o não pagamento integral do 13.º vencimento.
O ministro da Saúde, reagindo ao anúncio da extensão da greve, classificou a situação como “uma tristeza”, reconhecendo a existência de problemas. Nos últimos três anos, o Sistema Nacional de Saúde tem sofrido pressões recorrentes, com greves convocadas também pela Associação Médica de Moçambique (AMM), que exige melhores condições de trabalho.
Dados da Ordem dos Médicos, avançados à Lusa em junho de 2025, indicam que Moçambique forma anualmente mais de 200 médicos em seis universidades, um número que contrasta com a escassez de profissionais que se seguiu à independência, há cinco décadas. Apesar do aumento de formandos, as condições laborais continuam a gerar tensões recorrentes.
NR/HN/Lusa



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