“Saúde ignorada no debate sobre catástrofes climáticas, alerta Luís Campos”

20 de Fevereiro 2026

O presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), Luís Campos, afirmou hoje que a relação entre as catástrofes climáticas e o impacto na saúde pública tem sido negligenciada, apesar da evidência de que fenómenos como as recentes tempestades e inundações em Portugal vão tornar-se mais frequentes e severos

O responsável falava a propósito das depressões que nas últimas semanas atingiram o continente, causando 18 vítimas mortais e avultados prejuízos, e deixou críticas à forma como a comunicação tem sido feita. “Tem sido descurado na comunicação acerca destas inundações a relação entre estas catástrofes climáticas e a saúde”, sustentou, em declarações à Lusa no âmbito de um “podcast” a divulgar no sábado.

Luís Campos sublinhou que, “mercê da evolução pessimista que as alterações climáticas estão a ter”, os episódios extremos serão não só mais intensos como também mais duradouros. E isso, disse, exige preparação. “Temos de nos começar a preparar”, afirmou, defendendo a existência de “planos de contingência para estas catástrofes”. Na sua opinião, a resposta aos temporais mais recentes revelou-se “não planeada”.

O internista, que foi diretor dos Serviços de Medicina Interna e de Urgência do Hospital São Francisco Xavier e é professor na Universidade Nova, insistiu na necessidade de integrar a saúde no debate sobre as alterações climáticas e ambientais. “A questão da poluição atmosférica, química, sonora e luminosa é muito importante”, elencou, sublinhando que as pessoas ainda não associam, de forma clara, esses fatores ao seu bem-estar diário.

Segundo o presidente do CPSA, os profissionais de saúde têm uma “obrigação ética” de se envolverem nesta matéria. “Temos de usar a nossa voz para dizer que não estamos perante um problema de ambientalistas ou de jovens radicais, mas um problema que nos afeta a todos”, frisou, notando que a saúde está no topo das prioridades dos portugueses, ao contrário das questões ambientais, que surgem num plano secundário. É preciso, defendeu, explicar que “as alterações do ambiente já estão a ter impacto na saúde”.

Dados avançados por Luís Campos apontam para que “uma em cada quatro mortes a nível global seja provocada por alterações ambientais”. Foi também a pensar nisto que surgiu o CPSA, em 2022. A organização junta várias entidades e procua, por um lado, reduzir o impacto na saúde decorrente das alterações ambientais e, por outro, mitigar a pegada ecológica do próprio setor da saúde. “Sentimos que estamos perante o problema mais complexo do nosso futuro e para problemas complexos temos de ter soluções integradas”, justificou, referindo-se à diversidade de organizações que compõem o conselho. Em Portugal, o setor da saúde é responsável por 4,8% das emissões de gases com efeito de estufa.

O médico lembou ainda os efeitos concretos das últimas tempestades nas infraestruturas de saúde. “Hospitais, centros de saúde, postos de colheita de análises, centros de hemodiálise, farmácias”, exemplificou, referindo que com a depressão Kristin, 195 unidades de saúde ficaram sem eletricidade. Mas os impactos vão além dos edifícios. Há o aumento de acidentes, a falta de acesso a cuidados, a subida de doenças infecciosas como gastroenterites, e as consequências na saúde mental.

“As perturbações mentais são gravíssimas”, sublinhou, em particular para quem perde a casa e os bens. E deixou um dado preocupante: “Estima-se que no primeiro ano depois de uma inundação destas a taxa de suicídio suba cerca de 20%, e no segundo ano ainda é maior, 60%”. Por isso, insistiu, “tem de haver também na saúde um plano de contingência adequado” para dar resposta às populações mais vulneráveis, e “monitorização do impacto tardio que as inundações têm na saúde das pessoas”.

Quanto às motivações que levaram à criação do CPSA, em 2022, Luís Campos explicou que o objetivo é exatamente reduzir o impacto na saúde das alterações ambientais e, em paralelo, reduzir o impacto ambiental do setor da saúde. “Temos de nos começar a preparar”, reiterou, deixando no ar a ideia de que, sem planeamento e sem uma visão integrada, os custos para a saúde pública serão cada vez mais elevados.

NR/HN/Lusa

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