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A União Europeia colocou a vacinação de doentes crónicos e maiores de 65 anos na primeira linha da estratégia para travar o avanço das doenças cardiovasculares. O Safe Heart Plan, apresentado esta semana, elege a imunização contra infeções respiratórias como o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) como uma das medidas prioritárias para reduzir complicações cardiovasculares numa população cada vez mais envelhecida e vulnerável.
O plano surge num contexto em que as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte e incapacidade na Europa, apesar dos avanços na prevenção e tratamento. Morrem por ano 1,7 milhões de europeus vítimas destas doenças, que afetam cerca de 62 milhões de cidadãos. Só em custos económicos, o impacto ultrapassa os 282 mil milhões de euros anuais, 47 mil milhões dos quais em perdas de produtividade, segundo dados da Comissão Europeia.
As projeções para as próximas décadas não são animadoras. Entre 2025 e 2050, estima-se que a prevalência das doenças cardiovasculares aumente 90% e que o número de mortes suba 73,4%, passando de 20,5 milhões para 35,6 milhões em 2050. Números que aceleraram a decisão de Bruxelas.
O Safe Heart Plan assenta em três pilares — prevenção, deteção precoce e tratamento —, mas é no primeiro que a vacinação ganha protagonismo. Além da gripe e da Covid-19, o VSR passou a estar no centro das atenções. Trata-se de um dos agentes mais comuns de infeções respiratórias e uma das principais causas de pneumonia e insuficiência respiratória em adultos com mais idade. A ligação ao coração? Direta: infeções respiratórias podem desencadear descompensações, enfartes ou AVC em quem já vive com doenças crónicas.
“Nas pessoas que vivem com doenças crónicas, a prevenção não é um complemento, é uma necessidade vital. Infeções respiratórias como o VSR, a gripe ou a Covid-19 podem desencadear episódios de descompensação, aumentar o risco de enfarte ou AVC e comprometer significativamente a qualidade de vida dos doentes”, afirma José Albino, representante do Movimento Doentes pela Vacinação (MOVA). “Investir na vacinação e numa abordagem preventiva integrada é proteger os mais vulneráveis e evitar complicações que são, muitas vezes, preveníveis.”
Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (ENSP Nova) concluiu que vacinar adultos com 60 ou mais anos contra o VSR poderia evitar dezenas de milhares de infeções respiratórias, centenas de urgências e hospitalizações, além de salvar vidas. A mesma investigação aponta para uma poupança anual superior a 45 milhões de euros em custos diretos médicos.
A Comissão Europeia quer agora apoiar os esforços nacionais para aumentar a cobertura vacinal, trabalhar com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) e a Agência Europeia do Medicamento (EMA) no combate à desinformação e monitorizar o desempenho dos programas de imunização.
Além da prevenção, o Safe Heart Plan reforça a importância da deteção precoce e do rastreio, para identificar fatores de risco antes de eventos graves, e do tratamento e reabilitação, com o objetivo de melhorar a gestão da doença e a qualidade de vida dos doentes.
O MOVA, fundado em 2017 pela Respira — Associação Portuguesa de Pessoas com DPOC e outras Doenças Respiratórias Crónicas, com o apoio da Fundação Portuguesa do Pulmão e do GRESP, integra hoje 22 organizações, entre as quais a Associação Portuguesa de Insuficientes Renais, a Federação Portuguesa das Associações de Pessoas com Diabetes, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, a Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, a MYOS, a Pulmonale, e, desde este ano, a Associação de Asma Grave, a Associação de Doentes com Lúpus, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia e o Movimento Cancro do Ovário e outros Cancros Ginecológicos. O movimento tem como missão ultrapassar barreiras à vacinação na idade adulta e divulgar informação para uma prevenção consciente, sobretudo junto da população mais vulnerável.
NR/HN/Lusa


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