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Há qualquer coisa no sangue que denuncia, muito antes de o corpo dar o primeiro sinal, que a colite ulcerosa pode vir a instalar-se. Quem o diz são os investigadores da Universidade de Örebro, que estiveram a vasculhar amostras de estudos populacionais de grande escala e encontraram um anticorpo específico, o anti-integrina αvβ6, que parece funcionar como uma espécie de farol de aviso. Em doentes que mais tarde receberam o diagnóstico, estes anticorpos já andavam por lá — nalguns casos, muitos anos antes de qualquer sintoma se manifestar.
Jonas Halfvarson, professor de medicina na mesma universidade e um dos rostos do estudo, não quer lançar foguetes antes da festa, mas admite que os resultados abrem uma janela de oportunidade. “Teoricamente, isto pode permitir que o tratamento comece mais cedo. Talvez até evite, ou pelo menos atrase, o aparecimento dos sintomas e o próprio diagnóstico. E, quem sabe, reduza o risco de complicações a longo prazo”, disse ao lado do pódio, em Estocolmo, onde esta semana decorre o congresso da ECCO, a organização europeia que junta especialistas em doença de Crohn e colite.
O trabalho, que envolveu também as universidades de Uppsala, Lund e Umeå, foi desenhado para perceber se estes autoanticorpos aparecem antes da doença e se podem ser usados como preditores. A resposta é sim, mas Halfvarson faz questão de moderar o entusiasmo: “É cedo para tirar conclusões definitivas.” Ainda assim, o achado dá aos clínicos uma ideia mais fina do que se passa nas fases iniciais do processo inflamatório.
No mesmo congresso, onde costumam marcar presença mais de oito mil participantes, a equipa sueca levou outros dois trabalhos. Um deles propõe uma assinatura proteica capaz de antecipar, logo no primeiro ano após o diagnóstico, como é que a colite ulcerosa pode evoluir. Testado em dois grupos de doentes, o modelo mostrou uma precisão relativamente alta. Se vier a ser confirmado, pode ajudar os médicos a decidir, mais cedo, se o caso exige uma abordagem mais agressiva ou se dá para ir com calma.
O outro estudo, batizado como NORDTREAT, comparou duas estratégias para doentes acabados de diagnosticar com doença inflamatória intestinal. De um lado, um tratamento guiado por marcadores biológicos recolhidos no sangue. Do outro, a abordagem convencional. No global, não se viram diferenças de fundo entre as duas vias, mas há indícios de que alguns perfis de doentes possam sair a ganhar com a tal terapia à medida.
No sábado, Halfvarson e a equipa recebem o prémio para o melhor estudo iniciado por investigadores, precisamente pelo NORDTREAT. “É o maior congresso da área. Apresentar dados aqui dá-nos a possibilidade de criar parcerias e receber contributos valiosos. Juntos, podemos mudar o futuro dos nossos doentes”, rematou.
https://academic.oup.com/ecco-jcc/article/20/Supplement_1/jjaf231.032/8432487
https://academic.oup.com/ecco-jcc/article/20/Supplement_1/jjaf231.008/8432623
NR/HN/AlphaGalileo



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