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A relação entre o processamento sensorial e a arquitetura do sono infantil está no centro de um trabalho conduzido por investigadores da Escola de Psicologia da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. A equipa, liderada pela professora Teodora Gliga, recrutou 41 bebés com idades compreendidas entre os oito e os 11 meses, incluindo crianças com e sem irmãos mais velhos autistas — um fator que aumenta a probabilidade de diagnóstico futuro, embora a condição não possa ser identificada de forma fiável antes dos três anos.
No laboratório do sono, cada bebé realizou duas sestas: uma numa sala silenciosa e outra num ambiente onde eram emitidos sons suaves, semelhantes a uma conversa normal, em intervalos regulares. Através da monitorização da atividade cerebral, os cientistas observaram que, nas crianças com traços de elevada sensibilidade sensorial — identificados através de questionários preenchidos pelos pais —, as ondas lentas características do sono profundo apresentavam menor amplitude. Ou seja, mesmo dormindo o mesmo tempo que os outros, a qualidade do descanso era inferior.
«Muitos pais referem que o bebé parece “incomodado” com sons ou sensações e agora começamos a perceber como essa sensibilidade pode afetar o sono», explicou a professora Gliga. A investigadora sublinhou que, embora a redução do ruído ambiente possa ajudar, não resolve totalmente a questão: «O sono destas crianças continuava mais superficial em ambientes tranquilos. As ondas lentas que definem esta fase eram mais pequenas e fracas, mostrando que, apesar da duração ser semelhante, a profundidade e a qualidade estavam diminuídas.»
A primeira autora do artigo, Anna de Laet, atualmente no King’s College London, destacou a importância de incluir bebés com diferentes perfis familiares para captar a diversidade de sensibilidades sensoriais. «Estes traços não significam que a criança vá desenvolver autismo, mas ajudam-nos a estudar como as diferenças sensoriais precoces podem moldar o sono na infância», referiu.
Os resultados apontam para a necessidade de estratégias que vão além do controlo do ruído ambiente. «O sono de qualidade é vital para o desenvolvimento cerebral e o bem-estar emocional», reforçou Gliga, defendendo que compreender estas diferenças é essencial para apoiar as famílias de forma mais eficaz. A investigação, financiada pela Wellcome, contou ainda com a colaboração de Rachael Bedford (Queen Mary University of London) e Alpar Lazar (UEA), e sugere que futuros estudos devem explorar formas de fortalecer a capacidade do cérebro para filtrar estímulos sensoriais durante o sono.
Referência bibliográfica
UNIVERSITY OF EAST ANGLIA. When “quiet” isn’t quiet enough: how shallow sleep in infants may relate to autism. Sleep, 18 fev. 2026.
NR/HN/AlphaGalileo



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