Autismo: estudo liga processamento sensorial a perturbações do sono na infância

21 de Fevereiro 2026

Bebés com maior probabilidade de desenvolver perturbações do espetro do autismo apresentam padrões de sono menos profundos, mesmo em ambientes silenciosos, revela um estudo da Universidade de East Anglia. A investigação, publicada na revista Sleep, estabelece uma ligação entre a sensibilidade sensorial — comum em crianças neurodivergentes — e a dificuldade em atingir um estado de repouso reparador. Mesmo quando expostos a ruído reduzido, estes bebés mantêm um sono mais leve

A relação entre o processamento sensorial e a arquitetura do sono infantil está no centro de um trabalho conduzido por investigadores da Escola de Psicologia da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. A equipa, liderada pela professora Teodora Gliga, recrutou 41 bebés com idades compreendidas entre os oito e os 11 meses, incluindo crianças com e sem irmãos mais velhos autistas — um fator que aumenta a probabilidade de diagnóstico futuro, embora a condição não possa ser identificada de forma fiável antes dos três anos.

No laboratório do sono, cada bebé realizou duas sestas: uma numa sala silenciosa e outra num ambiente onde eram emitidos sons suaves, semelhantes a uma conversa normal, em intervalos regulares. Através da monitorização da atividade cerebral, os cientistas observaram que, nas crianças com traços de elevada sensibilidade sensorial — identificados através de questionários preenchidos pelos pais —, as ondas lentas características do sono profundo apresentavam menor amplitude. Ou seja, mesmo dormindo o mesmo tempo que os outros, a qualidade do descanso era inferior.

«Muitos pais referem que o bebé parece “incomodado” com sons ou sensações e agora começamos a perceber como essa sensibilidade pode afetar o sono», explicou a professora Gliga. A investigadora sublinhou que, embora a redução do ruído ambiente possa ajudar, não resolve totalmente a questão: «O sono destas crianças continuava mais superficial em ambientes tranquilos. As ondas lentas que definem esta fase eram mais pequenas e fracas, mostrando que, apesar da duração ser semelhante, a profundidade e a qualidade estavam diminuídas.»

A primeira autora do artigo, Anna de Laet, atualmente no King’s College London, destacou a importância de incluir bebés com diferentes perfis familiares para captar a diversidade de sensibilidades sensoriais. «Estes traços não significam que a criança vá desenvolver autismo, mas ajudam-nos a estudar como as diferenças sensoriais precoces podem moldar o sono na infância», referiu.

Os resultados apontam para a necessidade de estratégias que vão além do controlo do ruído ambiente. «O sono de qualidade é vital para o desenvolvimento cerebral e o bem-estar emocional», reforçou Gliga, defendendo que compreender estas diferenças é essencial para apoiar as famílias de forma mais eficaz. A investigação, financiada pela Wellcome, contou ainda com a colaboração de Rachael Bedford (Queen Mary University of London) e Alpar Lazar (UEA), e sugere que futuros estudos devem explorar formas de fortalecer a capacidade do cérebro para filtrar estímulos sensoriais durante o sono.

Referência bibliográfica
UNIVERSITY OF EAST ANGLIA. When “quiet” isn’t quiet enough: how shallow sleep in infants may relate to autism. Sleep, 18 fev. 2026.

NR/HN/AlphaGalileo

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