Investigação do UKB revela como o organismo domina infeção pelo vírus de Epstein-Barr

21 de Fevereiro 2026

Cientistas do Hospital Universitário de Bona (UKB) identificaram fatores genéticos e não genéticos que explicam o controlo da infeção pelo vírus de Epstein-Barr, associado a cancros e doenças autoimunes. A equipa reanalisou dados de sequenciação do genoma de mais de 800 mil participantes e encontrou relações inesperadas, como o aumento da carga viral em fumadores ativos e pessoas com VIH. Foram também detetadas variações sazonais e novos genes candidatos a interferir na imunidade contra o vírus. O estudo, publicado na Nature, abre caminho para futuras terapêuticas

Entre 90 a 95 por cento da população adulta mundial está infetada pelo vírus de Epstein-Barr (EBV), um agente que, na maioria dos casos, permanece latente em células de memória do sistema imunitário. O problema surge quando a infeção se reativa — espontaneamente ou sob stresse — e contribui para o desenvolvimento de doenças como o linfoma de Hodgkin, esclerose múltipla ou patologias autoimunes. Apesar da prevalência, pouco se sabia sobre os mecanismos que o corpo utiliza para manter o vírus sob controlo.

Uma equipa liderada pela professora Kerstin Ludwig, do Instituto de Genética Humana do UKB, conseguiu agora contornar a falta de dados populacionais de larga escala. Em vez de medir diretamente a carga viral, os investigadores recorreram a informação de sequenciação do genoma de 486 mil participantes do UK Biobank e 336 mil do projeto All of Us. “A sequenciação do genoma serve, em princípio, para caracterizar o ADN humano, mas nós reutilizámo-la para detetar pequenos fragmentos do genoma do vírus”, explica o primeiro autor, Axel Schmidt. Através dessa abordagem, encontraram segmentos atribuíveis ao EBV em 16,2 por cento e 21,8 por cento das amostras, respetivamente. Em testes laboratoriais, confirmaram que a presença desses fragmentos correspondia a uma carga viral média mais elevada.

Com a nova métrica, foi possível cruzar dados de saúde e hábitos de vida. A equipa observou que a carga viral aumentava em pessoas imunodeprimidas e, de forma mais pronunciada, em fumadores ativos. “O tabagismo é um fator de risco conhecido para doenças associadas ao EBV, mas os mecanismos subjacentes permaneciam obscuros”, comenta Schmidt. “Os nossos dados sugerem que fumar no momento da colheita tem um impacto direto na carga viral, possivelmente através da modulação do sistema imunitário inato.” Outra descoberta inesperada foi a sazonalidade: mais sequências do vírus apareciam no inverno e menos no verão, o que pode refletir flutuações na resposta imune ou na reativação viral.

No plano genético, a análise revelou uma forte associação entre a carga viral e o complexo principal de histocompatibilidade (MHC), uma região do ADN essencial para o reconhecimento de agentes patogénicos. Além disso, identificaram 27 regiões fora do MHC que abrigam genes com funções imunitárias conhecidas, mas também vários candidatos novos. “Alguns desses genes podem desempenhar papéis cruciais na imunidade contra o EBV”, sublinha Ludwig. A sobreposição com doenças como a esclerose múltipla gerou novas hipóteses sobre os mecanismos da doença e sugeriu ligações até então insuspeitas, como com a diabetes tipo 1.

“Os nossos resultados não só fornecem uma base para compreender a imunidade ao EBV, como abrem portas a estudos mecanísticos e a abordagens terapêuticas para as doenças associadas”, conclui a investigadora. Num sentido mais lato, o trabalho demonstra como subprodutos da sequenciação do genoma humano podem ser aproveitados para investigar infeções virais persistentes. Participaram ainda no estudo a Universidade de Tóquio e o próprio UKB.

Referência bibliográfica:
Axel Schmidt et al. Host control of persistent Epstein-Barr virus infection. Nature, 2026. DOI: 10.1038/s41586-026-10274-4. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41586-026-10274-4

NR/HN/AlphaGalileo

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