Poupança não justifica substituir médicos por enfermeiros, alerta especialista no BMJ

21 de Fevereiro 2026

O especialista em saúde global Tiago Correia defende que a substituição de médicos por enfermeiros não deve ser determinada por motivos de poupança, mas apenas quando tal se traduzir numa mais-valia para os doentes. O professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa (IHMT-UNL) falava à Lusa depois de assinar um artigo na revista científica British Medical Journal (BMJ) que critica o que classifica como "soluções rápidas" para a falta de profissionais

A conversa com a agência Lusa surge na sequência de um texto publicado no BMJ, coassinado pelo investigador britânico Martin McKee, onde os autores avisam que colocar as classes profissionais “umas contra as outras” não resolve a escassez global de mão de obra na saúde. Pelo contrário, alertam para o risco de decisões apressadas, como a transferência de tarefas entre médicos e enfermeiros sem a devida ponderação.

Tiago Correia, que é também editor-chefe do European Journal of Public Health, reconhece que há “disputas entre as profissões de saúde” agravadas pela falta de gente, mas nota uma evolução recente para “uma lógica de maior colaboração e de interdependência”. Ainda assim, o que o preocupa, diz, é que a troca de funções assente no argumento da despesa: “Um enfermeiro custa menos do que um médico, logo, se há tarefas que enfermeiros podem fazer em vez de médicos, então vamos colocar enfermeiros.” O problema, sublinha, é que a revisão de 82 ensaios clínicos – que abrangeu perto de 28 mil profissionais – não comprovou que essa substituição gere poupanças.

E mais: feita de forma incorreta, a mudança pode até sair mais cara. “Põe em causa a qualidade, a segurança, e muitos procedimentos, porventura, até têm que ser repetidos”, justifica o coordenador do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho. Para Tiago Correia, a substituição só faz sentido em situações muito específicas e devidamente protocoladas, com regras claras e vigilância apertada.

Há casos, porém, em que a coisa pode resultar. O investigador aponta o exemplo do projeto-piloto em Portugal que prevê serem enfermeiros especialistas a acompanhar gravidezes de baixo risco. “Se os papéis dos médicos e enfermeiros estiverem bem definidos, não há razões para ter medo de avançar”, afirma, desde que a decisão não parta de uma “racionalidade de poupança” nem queira substituir uma profissão pela outra.

A falta de profissionais, insiste, combate-se primeiro com carreiras atrativas. “As carreiras devem ser interessantes, o mercado de trabalho na saúde deve ser interessante, comparativamente a outros mercados”, defende, lembrando que é preciso garantir que os profissionais, quando entram, permanecem no sistema. E num país envelhecido como Portugal, acrescenta, a prestação de cuidados tem obrigatoriamente de ser repensada. Para Tiago Correia, a solução passa por uma rede “absolutamente centrada nos cuidados de saúde primários”, com circuitos de comunicação, exames, diagnósticos e tratamentos “otimizados para reduzir tempo, deslocações e trabalho burocrático”. Tudo, diz, tem de ser repensado.

NR/HN/Lusa

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