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A polémica rebentou na quinta-feira, quando o Diário de Notícias revelou que quatro hospitais do Norte enviaram uma carta à ministra da Saúde a alertar para as listas de espera de doentes cardíacos que aguardavam cirurgia ou implantação de válvula aórtica. No mesmo dia, em entrevista à RTP, André Luz, diretor do serviço de Cardiologia da ULS Santo António, avançou que, só naquela unidade, dez doentes tinham morrido nos últimos três anos devido a uma lista de espera “demasiado elevada”. As declarações levaram a Ordem dos Médicos a exigir, esta sexta-feira, um esclarecimento “com caráter de absoluta urgência” por parte da Direção-Executiva do SNS e do Ministério da Saúde, considerando que, a confirmar-se o cenário, estaria em causa “uma falha grave na resposta assistencial” que colidia com princípios de equidade e segurança.
O Ministério da Saúde, em resposta enviada à agência Lusa, confirmou ter recebido o email subscrito pelas Unidades Locais de Saúde de Santo António, Tâmega e Sousa, Trás-os-Montes e Alto Douro e Matosinhos, onde “é reportada a existência de listas de espera na área da cirurgia cardíaca, bem como a ocorrência de alguns casos fatais, alegadamente associados a essa situação”. A tutela sublinhou que a mensagem deu entrada depois de o alerta dos médicos ter sido tornado público pela comunicação social. Na nota, o gabinete de Ana Paula Martins adianta que “foi já solicitada à Direção-Executiva do SNS uma avaliação urgente da situação destes doentes em lista de espera e a apresentação de soluções efetivas em articulação com as unidades de saúde do SNS”. Acrescenta ainda que, sempre que os tempos máximos de resposta garantidos são ultrapassados, cabe às entidades competentes estudar soluções baseadas nas melhores práticas clínicas e em pareceres de peritos, envolvendo a Direção-Geral da Saúde, a DE-SNS e o próprio Ministério.
A ULS Tâmega e Sousa, que serve 11 concelhos, esclareceu não ter ambição de se transformar num centro de referência, mas subscreveu a carta para fomentar uma reflexão global sobre o tema. Já o diretor do serviço de cardiologia da ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro admitiu, também à Lusa, que gostaria de vir a realizar intervenções percutâneas, embora garanta que não está em causa esvaziar os atuais centros de cirurgia cardíaca. Atualmente, os doentes da região que necessitam deste tipo de procedimentos são encaminhados para as ULS São João, Gaia/Espinho e Braga — esta última com uma estrutura que abriu há dois meses e que opera apenas a 20% da capacidade.
A possibilidade de a ULS Santo António vir a ser elevada a centro de referência gerou reações imediatas. Paulo Neves, diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho, alertou que um novo centro “amputaria capacidade aos existentes”, enquanto Adelino Leite Moreira, responsável pelo serviço homólogo no São João, falou numa “dispersão comprometedora de recursos humanos”. O bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, ouvido pela Lusa, classificou o dilema como uma “equação impossível”, lembrando que os especialistas disponíveis são os mesmos que já trabalham nos hospitais de referência. “A haver mais centros, teriam de transitar os mesmos médicos de um lado para o outro. É o que já está a acontecer”, resumiu.
O Ministério da Saúde remeteu para mais tarde qualquer decisão sobre a criação de novos centros, garantindo que, para já, a prioridade é apurar os factos e perceber o que realmente se passou com os doentes em lista de espera.
NR/HN/Lusa



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