Albergues do Porto. Nove sem-abrigo ganharam casa própria em meio ano

22 de Fevereiro 2026

O centro temporário Albergues Noturnos retirou nove pessoas em situação de sem-abrigo das ruas do Porto em cerca de meio ano com um projeto e equipa "muito especial" que faz o 'match' entre pessoas e casas

Carmo Fernandes, diretora-geral da instituição no centro do Porto, explica que a iniciativa assenta no conceito americano “housing first”: encontrar casas T0 ou T1 na cidade para pessoas em situação de sem-abrigo e garantir depois “o acompanhamento dessas pessoas que estão desligadas dos serviços do Estado”. Gente que, por razões várias, “não se adaptaram a instituições de espaço partilhado”. “Fazemos o ‘matching’ da pessoa com a casa”, sintetiza.

Há pelo menos “100 pessoas sinalizadas na cidade que vivem cronicamente na rua”, adianta a responsável. Perante este universo, uma pequena equipa de quatro pessoas “muito especiais” — psicólogos, assistentes de Serviço Social e um “educador de pares”, alguém que já viveu em situação de sem-abrigo e superou comportamentos aditivos — integra o projeto “Porto de Partida – Rumo à Inclusão”. A missão é combinar a casa certa para quem vive na rua há dez ou mais anos.

Trata-se de um programa “personalizado” que coloca a pessoa no centro e garante acompanhamento ao longo de anos, com prevenção 24 horas. “Estamos a falar dos casos mais complexos. Normalmente, nós dizemos aos técnicos que nos sinalizam que aquelas pessoas para as quais não há resposta nenhuma são essas que nos devem encaminhar, porque são aquelas situações em que ninguém acredita que haja uma solução para elas, mas existe e já há muito tempo”, sublinha Carmo Fernandes.

Depois, garante, os processos de mudança começam a desenhar-se. O cuidado consigo próprio, com a higiene, com a casa, a adesão à medicação, menos idas a serviços de urgência, redução de danos nos casos com comportamentos aditivos — são estas algumas das transformações observadas.

O projeto vai ser “alvo de uma avaliação de impacto pela Universidade Católica, porque queremos mostrar que aqui no Porto também faz sentido uma intervenção com estas características”, observa a diretora dos Albergues. “Se houver proprietários de T0 e T1 com preços justos, podem-nos contactar”, apelou, referindo que o objetivo para 2026 é conseguir fazer ‘matching’ com 20 pessoas a viver nas ruas da cidade.

Até ao momento aconteceu o milagre do ‘matching’ com nove pessoas que viviam na rua no Porto. A primeira foi em julho e ainda não saiu da casa, conta Carmen Fernandes. Este ano já conseguiram retirar da rua três pessoas.

Acolher pessoas em risco de exclusão social, com atenção especial às que se encontram em situação de sem-abrigo, através de processos personalizados que permitam o desenvolvimento integral e o compromisso com um projeto de vida inclusivo — esta é a missão dos Albergues Noturnos no Porto, instituição que surge em 1881 por iniciativa do então Rei de Portugal D. Luís I.

Em 2024, foram registadas 553 pessoas nessa condição, número que compara com as 597 de 2023 e as 647 de 2022. Na análise da naturalidade, a maior parte não é do Porto, dividindo-se em 39,9% vindos de outros municípios, 8,2% dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), 1,6% de países da União Europeia e 3,4% de outros locais. A nacionalidade portuguesa é maioritária (88,4%), mas os dados recolhidos mostram um ligeiro aumento (+1,8%) de pessoas em situação de sem-abrigo vindas dos PALOP, segundo informação disponível no sítio oficial da Câmara do Porto.

Questionada sobre os dados de 2025 relativos à população sem-abrigo, a autarquia disse à Lusa que o relatório “só estará concluído algures no final do primeiro semestre de 2026”.

NR/HN/Lusa

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