Caracas estuda indulto para presos políticos fora da amnistia

22 de Fevereiro 2026

O regime venezuelano admite conceder clemência a presos políticos que ficaram de fora da recente lei da amnistia, num processo marcado por números contraditórios: das mais de 11 mil pessoas que o presidente do parlamento diz poderem ser abrangidas, a oposição confirma, para já, apenas 19 libertações

Aprovada na quinta-feira pelos deputados e imediatamente promulgada, a lei foi uma das primeiras medidas de Delcy Rodríguez após a captura de Nicolás Maduro, a 3 de janeiro, numa operação militar norte-americana. Fontes próximas do processo admitem que Washington pressionou para que o regime avançasse com o gesto, mas o resultado final está longe de corresponder às expectativas iniciais. O texto não perdoa todos os crimes políticos cometidos entre 1999 e 2026, ao invés, circunscreve-se a 13 períodos específicos das presidências de Hugo Chávez e do seu sucessor, agora deposto. Ficam de fora, por exemplo, polícias e militares envolvidos em atividades que o regime classifica como terroristas — uma exclusão que, na prática, mantém atrás das grades centenas de reclusos .

Jorge Rodríguez assegurou que a comissão parlamentar encarregue de aplicar a lei já recebeu 1557 pedidos de amnistia e que esses processos “estão a ser tratados de imediato”. Garantiu ainda que estão a ocorrer “centenas de libertações”, embora sem especificar números ou identidades. O plano, segundo o presidente do parlamento, é processar os pedidos para que “mais de 11 mil” pessoas atualmente sujeitas a medidas alternativas à prisão — como proibições de viajar ou comparências obrigatórias em tribunal — “possam usufruir de plena liberdade” .

Os números, contudo, são objeto de forte contestação. A Plataforma Democrática Unitária, que congrega a maioria da oposição, reportou até às 22:00 de sábado (02:00 de domingo em Lisboa) apenas 19 libertações confirmadas. A organização não governamental Foro Penal, que há anos lidera a defesa jurídica dos presos políticos venezuelanos, contabilizava 448 libertações desde que o governo interino anunciou as primeiras medidas em janeiro. O problema, sublinha a ONG, é que cerca de 650 pessoas permanecem encarceradas. O diretor da Foro Penal, Alfredo Romero, já veio a público classificar a exclusão de militares e outros perseguidos como “discriminatória e inconstitucional”, advertindo que sem a sua inclusão “não se pode falar em convivência nacional” .

Nos arredores das prisões, a agonia prolonga-se. Familiares de presos políticos montaram vigílias que duram há semanas, aguardando a qualquer momento a libertação dos seus. Muitos passaram os últimos dias a confrontar as listas oficiais com os nomes dos que continuam detidos. Na sexta-feira, a Foro Penal anunciou que apresentará uma relação de 232 casos com “graves violações aos direitos humanos” para que sejam reconsiderados à luz da nova lei .

A verdade é que a lei, elogiada por uns como um passo necessário, é vista por outros como um instrumento de aplicação seletiva. O artigo 9.º do diploma exclui explicitamente “pessoas que estejam a ser processadas ou possam vir a ser condenadas por promover, instigar, solicitar, invocar, favorecer, facilitar, financiar ou participar em ações armadas ou no uso da força contra o povo, a soberania e a integridade territorial” por parte de “Estados estrangeiros, empresas ou indivíduos”. Uma redação suficientemente ampla para deixar de fora figuras de proa da oposição, como María Corina Machado, acusada pelo chavismo de ter solicitado intervenção estrangeira .

Entretanto, na Assembleia Nacional, o discurso oficial mantém-se otimista. Jorge Rodríguez defendeu que o parlamento está a processar os pedidos com celeridade e que a lei representa uma oportunidade histórica. Do lado de fora, porém, as famílias continuam a confrontar-se com a lentidão da máquina judicial e com a opacidade de um processo cujos contornos reais teimam em não se esclarecer. Para muitos, a promessa de clemência para os excluídos soa, para já, a uma nebulosa de intenções num país onde a justiça sempre dependeu mais de quem a administra do que da lei escrita.

NR/HN/Lusa

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