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À volta da mesa de mistura, os microfones circulam entre mãos que seguram blocos de notas, poemas ou apenas o pensamento para o debate do dia: a frustração. Cláudia Mateus, 16 anos de rádio, abre a emissão com a voz calma, a apresentar o projecto pioneiro que luta contra o preconceito. Quando lhe chega a vez, desabafa: frustração é “ver alguém a sofrer e não conseguir ajudar”, é sentir-se “excluída na sociedade” ou ser vista “como maluca ou incapaz”. Os amigos de longa data, diz depois à Lusa, afastaram-se quando conheceram o diagnóstico. “Ainda há muito caminho”, repete, com os olhos azuis a brilhar.
Nuno Faleiro Silva, psicólogo e coordenador, orienta a sessão com discrição. Um gesto, e a palavra passa. O ruído de um avião lá fora interrompe por segundos as reflexões. O tema da frustração foi escolhido por todos, democraticamente, como tudo por ali. “O que nos interessou foi construir um espaço o mais livre possível”, sublinha. O projecto nasceu a 6 de Março de 2019, no extinto Hospital Miguel Bombarda, inspirado por experiências como a rádio Nikosia, em Barcelona. Nuno recorda a visita: “Foi mais fácil transmitir de Barcelona do que em Portugal, apesar de depois termos encontrado muita abertura.”
Sara Stone entrou há seis anos, experimentou e ficou. Ali descobriu a vocação de locutora, tornou-se “mais autónoma e proactiva”. Fala do grupo como uma comunidade: “É um por todos e todos por um. Não fazemos discriminação de títulos ou de ideias. Funcionamos como um grupo de apoio.” As amizades constroem-se na entrega: “Nós damo-nos ao grupo e o grupo dá-se a nós.”
Ruben Cruz conheceu a Rádio Aurora numa visita de estudo do Hospital de Vila Franca de Xira. “Fiquei apaixonado”, confessa. Há sete anos que participa e vê no projecto uma forma de provar que é possível fazer coisas maravilhosas apesar dos problemas. “A doença mental não é visível. Podemos tratar das mãos, das pernas, mas o que nos atormenta por dentro é mais difícil de observar”, reflecte. O objectivo, diz, é “desestigmatizar e abrir consciências”.
No final da gravação, Cláudia sorri. Lembra-se de quando o namorado, conhecido no Hospital de Dia, a convidou para ir à rádio. Ela recusava, pensava: “Estar a ouvir mais malucos?” Hoje reconhece o auto-estigma. Um dia decidiu experimentar, enquanto esperava num “restaurantinho muito simpático” a beber chá. “Adorei. Nunca mais deixei de ir.” O que a marcou foi perceber que todas as vozes contam. “Entre nós não há estigma, há fraternidade. Mesmo que pareça um disparate, todos calam para ouvir.”
A Rádio Aurora – A Outra Voz é transmitida em 15 estações do país, incluindo a Antena 1. Tem as portas abertas a quem quiser pensar em conjunto, esteja internado, em tratamento ou sem ligação à saúde mental. A equipa da Lusa – Helena Neves no texto, Hugo Fragata no vídeo e Manuel Almeida nas fotografias – assistiu a uma emissão e registou o ambiente de cooperação que ali se vive.
NR/HN/Lusa



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