Jorge Félix: «Vamos criar a primeira rede de investigação em farmácia hospitalar»

02/23/2026
Em entrevista exclusiva ao Healthnews, Jorge Félix, presidente da EXIGO, anuncia a criação da Pharmascientic, uma rede nacional de investigação em farmácia hospitalar, em parceria com a APFH. O primeiro estudo, inédito à escala global, vai calcular a pegada ecológica do medicamento hospitalar

HealthNews (HN) – A EXIGO está prestes a avançar com um acordo de cooperação científica com a Associação Portuguesa de Farmacêuticos Hospitalares (APFH). Do que trata essa nova ligação entre a EXIGO e a APFH?

Jorge Félix (JF) – Essa ligação prende‑se com o projeto que estamos a desenvolver em parceria com a Associação Portuguesa de Farmacêuticos Hospitalares (APFH). Vamos firmar um acordo de cooperação técnica e científica, precisamente na área da investigação, num conceito mais amplo de estudo científico. A farmácia hospitalar desempenha hoje um papel absolutamente central na gestão do medicamento nos hospitais, a vários níveis, inclusive económico. A rubrica do medicamento hospitalar pode representar entre 20% a 30% dos custos totais de um hospital, o que coloca os farmacêuticos hospitalares numa posição privilegiada para contribuir de forma decisiva para gerar valor para os doentes, eficiência e sustentabilidade para o sistema de saúde.

HN – E que projeto concreto é esse que vai unir a Exigo e a APFH?

JF – Vamos lançar a Pharmascientic — uma rede científica das farmácias hospitalares, públicas e privadas, que pretende investigar em rede através de profissionais de saúde especialistas no medicamento e com elevado nível de diferenciação técnico-científica. Trata-se de uma plataforma de inovação e investigação de âmbito nacional, desenhada para potenciar a cooperação entre as farmácias hospitalares. O conceito é inovador, não só em Portugal como no mundo. Existem várias redes científicas noutras áreas, mas ao nível das farmácias hospitalares nunca foi criada uma estrutura com estas características. É a primeira vez que se faz uma rede que pretende, no fundo, que o somatório das partes seja muito mais do que um ou outro hospital a desenvolver os seus projetos isoladamente. Os objetivos são claros: impulsionar investigação de qualidade, focar-nos em tópicos contemporâneos do panorama internacional da saúde, valorizar os profissionais e a sociedade através da produção de ciência e garantir a divulgação de estudos robustos com representatividade nacional.

HN – Fala‑se muito em investigação em rede, mas como é que isso se traduz na prática? Qual vai ser o primeiro estudo a avançar?

JF – O primeiro estudo que vamos implementar é sobre a pegada ecológica do medicamento hospitalar. É um tema muito atual e, mais uma vez, com características pioneiras. Não há registo de nenhum país que tenha feito um estudo de âmbito nacional para estimar a pegada ecológica do medicamento hospitalar. Existem casos pontuais de hospitais que fizeram avaliações isoladas, mas um estudo nacional, simultâneo, com todas as farmácias hospitalares a trabalhar em conjunto, é absolutamente inédito.

HN – Como é que esse estudo se vai processar? Quem recolhe os dados, como são tratados, e qual é o papel da Exigo?

JF – A Exigo aporta a capacitação técnica e científica. Somos uma empresa de consultoria independente, especializada no setor da saúde, com vasta experiência nacional e internacional em acesso ao mercado farmacêutico, epidemiologia, avaliação de resultados em saúde, síntese de evidência e economia da saúde. Através de uma plataforma totalmente desmaterializada, estabelece-se a comunicação entre todas as farmácias aderentes. Com base num protocolo de investigação comum, apoiamos cada farmácia a implementar localmente esse protocolo. Depois, todos fazem o upload da informaçãona plataforma eletrónica, e a Exigo gere a agregação dessas bases de dados numa única base de nacional. Fazemos as análises estatísticas, produzimos um artigo científico ou comunicações para congressos, sempre validadas pelos pares dentro da rede. No final, entregamos um estudo concluído e uma publicação científica.

HN – Parece um processo que retira muito trabalho burocrático aos farmacêuticos. É essa a ideia?

JF – Exatamente. Um dos nossos grandes objetivos é valorizar a atividade dos farmacêuticos hospitalares. Eles são profissionais altamente especializados, que integram equipas multidisciplinares e garantem a qualidade dos cuidados prestados e os resultados de saúde que importam aos doentes, contribuindo ainda para uma gestão mais eficiente e sustentável dos medicamentos. Mas, hoje, muitas vezes o trabalho de investigação que fazem acaba por não ter a visibilidade que merece. As pessoas não têm tempo — e por vezes nem o conhecimento específico — para percorrer todo o caminho da investigação, desde a conceção do estudo até à publicação. A Pharmascientic  permite dar essa estrutura, oferecer o conhecimento metodológico e a capacidade de transformar dados em valor. Como costumo dizer, é fácil falar em “fazer acontecer”, mas na prática há muitas barreiras. Nós damos toda esta estrutura, e o protocolo com a APFH vem justamente nesse sentido: valorizar o farmacêutico e a sua atividade.

HN – Falou em barreiras. Quais são, na sua opinião, os principais obstáculos a este tipo de investigação em farmácia hospitalar?

JF: O primeiro grande obstáculo é a escala. A investigação feita numa única farmácia, por mais rigorosa que seja, acaba por ter uma representatividade limitada. Portugal é um país pequeno, com algumas dezenas de farmácias hospitalares, mas se conseguirmos agregá‑las todas, passamos a ter um conjunto de informação muito mais robusto, com milhares de casos — dependendo da patologia em estudo. Depois, há a questão dos recursos humanos: localmente, os farmacêuticos que querem fazer investigação têm de o fazer fora do seu horário normal de trabalho, porque a atividade principal — garantir que o medicamento certo chega à pessoa certa, com segurança — é absolutamente prioritária e ocupa a totalidade do seu tempo. Acresce que nem sempre existe o conhecimento técnico‑científico suficiente para desenhar e implementar um estudo do princípio ao fim. Tudo isto contribui para que haja poucos incentivos e muita dificuldade em avançar.

HN: Portanto, a falta de tempo e de massa crítica são as maiores dificuldades?

JF – Sim. Os farmacêuticos estão sobrecarregados com as tarefas do quotidiano, e a investigação acaba por ser vista como um extra, algo que exige um esforço suplementar sem um retorno imediato. E depois há o fator desânimo: quando se trabalha sozinho, com uma amostra reduzida, os resultados demoram a aparecer e nem sempre são publicáveis. Nós queremos inverter essa lógica, mostrando que, em rede, o esforço de cada um se multiplica e os resultados são muito mais significativos.

HN – E do ponto de vista administrativo e ético? Antevê complicações com as comissões de ética ou com as direções dos hospitais?

JF – Não, de todo. Todos os estudos que promovemos são submetidos e aprovados pelas comissões de ética de cada centro envolvido. É um procedimento obrigatório e que respeitamos escrupulosamente. Penso que, pelo contrário, quando estes projetos estiverem concluídos, vão dar um contributo muito importante para a diferenciação e para o perfil científico de cada farmacêutico e de cada serviço. O próprio Ministério da Saúde valoriza a formação e a produção científica — as publicações são um indicador da qualidade técnica das instituições. Portanto, não antecipamos qualquer tipo de entrave; acreditamos que as direções dos hospitais verão estes estudos como uma mais‑valia.

HN – A Exigo já tem 25 anos de experiência. O que é que, exatamente, a empresa faz e como se posiciona neste ecossistema?

JF – A Exigo é uma empresa de investigação e consultoria na área da saúde, especializada em estudos observacionais, epidemiologia, outcomes research e apoio à publicação científica. Desde 2001, acumulamos vasta experiência nacional e internacional em acesso ao mercado farmacêutico, avaliação de tecnologias de saúde, epidemiologia, avaliação de resultados, síntese de evidência e economia da saúde. Trabalhamos com a indústria farmacêutica, com instituições de saúde e com associações científicas. A nossa mais‑valia está em desenhar estudos robustos, gerir dados de forma segura e transformar esses dados em conhecimento publicável. Neste projeto com a APFH, o nosso papel é o de facilitador e agregador: fornecemos a plataforma, a metodologia, a análise estatística e o suporte para publicação. Mas a investigação é feita pelos farmacêuticos, nos seus hospitais, com os seus doentes. É uma parceria em que cada um contribui com o que tem de melhor.

HN – E quanto à adesão dos hospitais? Já sabem quais são os centros que vão participar?

JF – O primeiro estudo é dirigido a todos os hospitais do sistema de saúde, públicos e privados. Não é obrigatório, evidentemente; a participação é voluntária. Mas acreditamos que ninguém vai querer ficar de fora, porque é uma oportunidade única de fazer parte de uma rede inovadora e de contribuir para um conhecimento que vai beneficiar todo o país. A APFH tem um papel fundamental na aglutinação destas vontades. O nosso objetivo é que, progressivamente, todos os hospitais se juntem, e que a rede se torne um instrumento permanente de investigação.

HN – A pegada ecológica dos medicamentos é um tema que tem ganho relevância. Pode explicar, em traços gerais, o que será avaliado?

JF – Vamos avaliar o ciclo de vida do medicamento hospitalar do ponto de vista ambiental, desde a aquisição até à sua eliminação. Isto inclui, entre outros, o transporte, a embalagem, a energia consumida na conservação (como frigoríficos para medicamentos termolábeis), e os resíduos gerados. Muitos medicamentos podem ter um impacto ambiental significativo, e os hospitais têm um papel muito importante nesta gestão, também ambiental. Ao quantificar essa pegada, poderemos identificar pontos críticos e propor medidas de mitigação. É um estudo que alia a investigação à responsabilidade ambiental, algo que está na ordem do dia e que os cidadãos valorizam cada vez mais.

HN – E como é que os farmacêuticos serão envolvidos na recolha desses dados? Não será mais uma tarefa burocrática?

JF – Tentamos reduzir ao máximo a carga burocrática. O protocolo é desenhado para que a recolha seja simples e integrada, sempre que possível, nos procedimentos habituais. Muitos dos dados já existem nos sistemas informáticos dos hospitais — consumos de energia, registos de encomendas, gestão de resíduos. O que pedimos é que sejam extraídos e anonimizados para a plataforma. Claro que haverá um trabalho adicional, mas acreditamos que o retorno — em termos de conhecimento, publicações e visibilidade — compensa largamente o esforço.

HN: Que mensagem gostaria de deixar aos farmacêuticos hospitalares e aos responsáveis dos hospitais?

JF – Gostaria de dizer que a investigação não é um luxo, é uma necessidade. Um sistema de saúde moderno tem de se avaliar, tem de medir os seus resultados, tem de inovar. E os farmacêuticos hospitalares estão na linha da frente para fazer essa investigação acontecer. Com a Pharmascientic, damos‑lhes as ferramentas e o suporte para que possam transformar o seu trabalho diário em conhecimento científico. Faço um apelo para que adiram, para que participem, para que tragam as suas ideias. Esta rede é de todos e para todos. Juntos, podemos fazer a diferença no sistema de saúde e projetar a farmácia hospitalar portuguesa para o mundo.

Entrevista: MMM

 

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