Novo elo entre vírus e esclerose múltipla desvendado em estudo

23 de Fevereiro 2026

Investigadores do Instituto Karolinska descobriram um mecanismo que explica como a reação ao vírus Epstein-Barr pode desencadear danos cerebrais associados à esclerose múltipla, avançando na compreensão de uma ligação há muito suspeita

Um estudo agora publicado revela que certas células do sistema imunitário, ativadas para combater o vírus comum Epstein-Barr (EBV), podem simultaneamente atacar uma proteína do cérebro, num fenómeno designado por mimetismo molecular. Esta descoberta concretiza, pela primeira vez com este nível de detalhe mecânico, o processo através do qual uma infeção viral aparentemente banal pode estar na origem de uma doença neurológica crónica e complexa. A esclerose múltipla (EM) caracteriza-se precisamente por um ataque imunitário desregulado ao sistema nervoso central.

A equipa, que analisou amostras de sangue de doentes e de controlos saudáveis, isolou um tipo específico de células T que reagem tanto a uma proteína do vírus, a EBNA1, como a uma proteína presente no cérebro, a Anoctamina-2 (ANO2). A presença destas células imunes cruzadas foi significativamente mais elevada nos indivíduos com EM. Para além da evidência em humanos, experiências num modelo animal demonstraram que tais células têm a capacidade de agravar sintomas semelhantes aos da EM e de provocar lesões no tecido cerebral.

Olivia Thomas, professora auxiliar e primeira autora do trabalho, sublinha que “os resultados fornecem evidência mecânica de que as respostas imunes ao EBV podem danificar diretamente o cérebro na EM”. A investigadora acrescenta um nuance importante: “Sendo uma doença neurológica complexa, é possível que os mecanismos moleculares variem entre doentes”. Esta variabilidade pode ajudar a explicar o facto misterioso de apenas uma fração das pessoas infetadas com o ubíquo vírus Epstein-Barr vir a desenvolver a doença anos mais tarde.

A implicação prática imediata deste avanço reside no horizonte terapêutico. Tomas Olsson, professor que co-liderou o estudo com Andre Ortlieb Guerreiro-Cacais, afirma que “a descoberta abre caminho a novos tratamentos que visem estas células imunes cruzadas”. Este caminho torna-se particularmente pertinente dado que, atualmente, decorrem já ensaios clínicos com vacinas e fármacos antivirais contra o EBV. O trabalho, uma colaboração entre vários grupos do Karolinska Institutet, foi financiado por entidades como o Conselho de Investigação Sueco e o programa Horizonte da UE.

A descoberta não invalida outros possíveis fatores, genéticos ou ambientais, que concorrem para o desenvolvimento da esclerose múltipla, mas fornece uma peça fundamental e há muito procurada no puzzle etiológico da doença.

Referência Bibliográfica:
Thomas, O., et al. (2026). New mechanism links Epstein-Barr virus to MS. Cellhttps://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2025.12.032

HN/AlphaGalileo

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