Portugal abaixo da média global na representação de mulheres nos media

24 de Fevereiro 2026

A igualdade de género nos media portugueses não só se mantém “um objetivo distante”, como revela “sinais de regressão”, com as mulheres a continuarem a ser menos ouvidas nas notícias, segundo um estudo internacional.

O relatório nacional da última edição do Global Media Monitoring Project (GMMP), cujos resultados serão apresentados esta semana, hoje em Coimbra e quarta-feira em Lisboa, conclui que, “num dia rotineiro de notícias, as mulheres representam apenas 24% das pessoas visíveis no noticiário” em Portugal, percentagem abaixo da média global dos 94 países onde o estudo se realizou (26%).

Este retrato, relativo a 2025, ocorre após uma década de “evolução positiva” e revela “um recuo significativo face aos 34% registados em 2020”, data da anterior edição do GMMP.

Levado a cabo pela organização não-governamental World Association for Christian Communication, o GMMP, que se realiza de cinco em cinco anos desde 1995 (2005 em Portugal), é o maior e mais antigo estudo sobre disparidades de género nos conteúdos noticiosos.

Além do recuo global de Portugal para “níveis equiparados a 2015”, Rita Basílio Simões, professora universitária e coordenadora nacional do GMMP, destaca as mudanças “para pior” no digital, que em 2020 revelava uma “quase paridade” na produção informativa.

“Agora vemos justamente o contrário, vemos o digital, que foi sempre sendo entendido com esperança, (…) como uma forma de poder ajudar a superar uma série de desigualdades e, na verdade, fica bem saliente nesta edição que não é assim”, lamenta, em entrevista à Lusa, a coordenadora da Secção de Comunicação do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

A par da menor presença nas notícias, as mulheres são no mínimo três vezes menos ouvidas enquanto fontes de informação e, quando o são, são-no por associação à política ou visibilidade enquanto figuras públicas, sendo “residual” a convocatória na qualidade de especialistas.

“As mulheres permanecem subrepresentadas enquanto produtoras de sentido, provedoras de interpretação e vozes de autoridade”, assinala o relatório, elencando que “a proporção de fontes femininas varia significativamente consoante o meio, oscilando entre 18% na rádio, 21% na imprensa, 24% nos ‘sites’ de notícias e 30% na televisão”.

A coordenação nacional do GMMP destaca o contraste entre a feminização da produção informativa e “a persistência de assimetrias” no tratamento noticioso dado a homens e mulheres.

Rita Basílio Simões lembra que há muito a investigação académica vem constatando que não basta haver mais mulheres para produzir uma mudança de paradigma no que diz respeito à igualdade de género.

Mesmo com quase 42% de jornalistas mulheres, “a verdade é que não há uma mudança estrutural no tipo de conteúdos que são produzidos, portanto, continuamos a verificar os mesmos desequilíbrios na eleição de fontes, na presença de mulheres e no próprio tratamento que é dado à realidade social”, constata.

Exemplo disso é, desde logo, a cobertura residual de tópicos ligados a violência de género (2%).

Neste cenário, sai reforçada “a necessidade de transformações estruturais nas práticas jornalísticas e nas condições de produção da informação”, conclui o relatório.

Nos temas, há uma diminuição de mulheres no noticiário político e económico, “naturalizando a ideia de que as ‘hard news’ se constroem predominantemente a partir da presença e da voz masculinas”, constata-se.

Rita Basílio Simões aponta que as mulheres têm maior visibilidade em “temas marcadamente periféricos”, como celebridades, artes e média, ou explicitamente marcados pelo género, como violência de género.

Assim, é preciso “compreender como, apesar dos progressos institucionais e normativos, as normas culturais persistem e continuam a influenciar as perceções sociais sobre o género, em particular no campo mediático”.

A resposta passa por uma “intervenção multissistémica”, juntando diversos atores – jornalistas, direções editoriais, órgãos de decisão dos órgãos de comunicação social, instituições que formam profissionais, reguladores e sociedade civil – “num ambiente de responsabilidade partilhada”, defende Rita Basílio Simões, propondo “ações mais continuadas” de monitorização.

“Não podemos responsabilizar só as redações, onde os jornalistas são meros peões, sem capacidade de decisão”, observa, notando que os órgãos de comunicação social “não estão maioritariamente despertos para reconhecer a importância de promover redações mais plurais”.

Além disso, os planos de ação estatais “têm eco, obviamente, nas instituições de natureza pública, mas pouco eco têm nas restantes [privadas], que são a maioria”.

lusa/HN

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