Teresa Santos: Aluna de doutoramento no Instituto Karolinska em Economia da Saúde

Dia Mundial da Obesidade 2026: por um Portugal menos obeso

02/25/2026

Faz este mês um ano desde que o governo anunciou o Roteiro de Ação para Acelerar a Prevenção e Controlo da Obesidade em Portugal (1). Este programa propôs 10 ações incluindo medidas de prevenção da obesidade, assim como mediadas de melhoria dos cuidados de saúde para pessoas que vivem com obesidade em Portugal. Um ano depois, em celebração do Dia Mundial da Obesidade, proponho-me a analisar o progresso de Portugal, refletindo sobre algumas das mais relevantes conquistas do país na luta contra a obesidade, assim como os desafios que prevalecem.

A Importância do Combate da Obesidade em Portugal

Apesar de muitos ainda não a verem como tal, a obesidade é uma doença que afeta muitos portugueses (1 em cada 4 adultos de acordo com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, em 2017), e tem um impacto significativo nas contas públicas, representando 10% da despesa total em saúde e custos equivalentes a 3% do PIB (1). A obesidade é ainda o segundo fator de risco responsável por mais anos perdidos por morte ou incapacidade em Portugal, sendo ultrapassado apenas pela hiperglicemia em jejum, um indicador de diabetes que, por sua vez, está também associado com a obesidade (2). Para além do seu impacto na sociedade, a obesidade tem impactos significativos para as pessoas portadoras da doença, diminuindo a qualidade e esperança média de vida, impondo custos significativos, e deteriorando a saúde mental dos que vivem com obesidade (3).

A obesidade em Portugal é também marcada por fortes desigualdades sociais: um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto observou que a obesidade é mais prevalente em pessoas com menor escolaridade e rendimentos mais baixos (4). Estes resultados são problemáticos, tendo em consideração os custos adicionais sentidos por pessoas com obesidade, indicando que aqueles que têm menos capacidade de pagar, são os que maior impacto financeiro sofrem. Assim, o combate à obesidade em Portugal apresenta-se também como um mecanismo para o aumento de igualdade social.

Uma celebração das conquistas passadas

Portugal tem sido pioneiro na luta contra a obesidade ao longo das últimas décadas. Por isso mesmo, em Setembro do ano passado, Portugal foi reconhecido pelas Nações Unidas, que destacaram o trabalho do Ministério da Saúde e da DGS nas áreas de saúde pública e da promoção do exercício físico e alimentação saudável, sublinhando a capacidade de mobilizar diferentes setores da sociedade para a transformação de ambientes alimentares, com especial enfoque na proteção das crianças (5).

Operacionalização do roteiro

A operacionalização do roteiro anunciado em Março deu-se em Novembro de 2025, com a criação do Programa Nacional de Prevenção e Gestão de Obesidade, e o estabelecimento formal do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade no Serviço Nacional de Saúde (6). O Programa Nacional de Prevenção e Gestão de Obesidade foi concebido como uma plataforma transversal de agregação e coordenação de intervenções na área da obesidade. O Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade no Serviço Nacional de Saúde, por sua vez, visa articular os diferentes níveis de cuidados para uma abordagem centrada na pessoa através da criação de equipas multidisciplinares de obesidade nas unidades locais de saúde.

Acesso, Literacia e Estigma: Os maiores desafios que temos pela frente

O novo Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade no Serviço Nacional de Saúde representa um passo crucial para o tratamento da obesidade em Portugal. Não obstante, observam-se ainda lacunas no diagnóstico da doença no país. Um dos fatores que hoje dificulta o diagnostico da obesidade em Portugal remete para a desconexão entre a pessoa com obesidade e o seu diagnostico: Em Dezembro de 2025, investigadores da Escola Nacional de Saúde Pública identificaram que 1 em cada 7 portugueses com obesidade não reconhece ter a doença (7). Esta desconexão entre os pacientes e o seu diagnóstico é especialmente preocupante numa altura em que grande parte da população não tem acesso a um médico de família, ou contacto regular com o mesmo, impedindo as pessoas com obesidade de serem diagnosticadas e usufruírem do novo Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade no Serviço Nacional de Saúde.

Neste sentido, o governo tem lançado várias campanhas de literacia em saúde com vista a aumentar a informação relativamente ao diagnostico, prevenção e tratamento da obesidade em Portugal (8). No entanto, o reconhecimento do problema por parte da pessoa com obesidade não é suficiente: Em primeiro lugar porque, mesmo que a pessoa com obesidade ganhe capacidade de se reconhecer como portador da doença, o estigma sentido na população portuguesa em relação à obesidade muitas vezes impede que a pessoa com obesidade procure tratamento (9); Em segundo lugar porque, mesmo que a pessoa com obesidade reconheça a doença e procure tratamento, a dificuldade no acesso aos cuidados de saúde primários em Portugal poderá atrasar o acesso a tratamento, aumentando a ansiedade da pessoa com obesidade, e levando à procura de tratamentos caseiros em fontes pouco fidedignas como as redes sociais.

Então e as “drogas mágicas”?

Não é possível refletir sobre o combate à obesidade no ano que passou sem falar também nos “novos” fármacos que se apresentam à população portuguesa como “drogas mágicas” para perda de peso. Apesar da promessa destes fármacos no tratamento da obesidade, estes são tudo menos mágicos, por várias razões: Em primeiro lugar, porque estes fármacos podem aumentar as desigualdades sociais no que toca à obesidade em Portugal, devido aos elevados custos para os utilizadores; Em segundo lugar, porque estes fármacos devem ser tomados de maneira complementar ao acompanhamento nutricional e de atividade física, algo que está, mais uma vez, dependente do acesso da população aos cuidados de saúde primários, que nem sempre é garantido; Por fim, porque se apresentam como soluções permanentes à obesidade, visto que muitos dos utilizadores a recuperam o peso rapidamente após pararem a toma do medicamento.

Assim, um ano após o lançamento do Roteiro de Ação, Portugal demonstrou progressos importantes na luta contra a obesidade. Não obstante, o país ainda enfrenta desafios significativos, especialmente no diagnóstico, no acesso aos cuidados, e na redução do estigma. Para que o país avance rumo a um futuro mais saudável e equitativo, será essencial fortalecer estes pilares, garantindo que as pessoas com obesidade tenham a capacidade de reconhecer a sua doença, que o sistema seja capaz de diagnosticar e tratar as pessoas com obesidade, e que a sociedade esteja preparada para apoiar as pessoas com obesidade na luta contra a doença.

 

Referências:

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

DGS regista subida da mortalidade fetal e infantil em 2024

Portugal registou em 2024 aumentos nos óbitos de fetos com mais de 22 semanas de gestação e nos óbitos de crianças nascidas vivas que faleceram com menos de um ano, segundo relatório da Direção-geral de Saúde (DGS).

VI Congresso da ATA debate saúde e movimento em Amarante

Auditório do Centro Cultural recebe, a 10 e 11 de abril de 2026, especialistas de várias áreas para refletir sobre o papel da atividade física no bem-estar biopsicossocial, numa organização da Associação Território de Afetos

APIFARMA debate futuro da vacinação em conferência no CCB

A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA) promove no dia 28 de abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a conferência “Preparar o Futuro | O Valor da Vacinação em Saúde”. O encontro, que assinala a Semana Europeia da Vacinação, conta com a apresentação de um estudo inédito sobre a perceção do valor das vacinas em Portugal

Doença silenciosa ameaça ser quinta causa de morte em 2050

A doença renal crónica, que muitas vezes não dá sinais, pode tornar-se a quinta principal causa de morte a nível mundial em 2050. O alerta foi deixado esta terça-feira pela diretora do Serviço de Nefrologia da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, a dois dias das comemorações do Dia Mundial do Rim e do 50.º aniversário da unidade

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights