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Há qualquer coisa de intrigante na forma como os miúdos se escolhem. No recreio, nas brincadeiras, nos silêncios partilhados. O estudo agora divulgado, da autoria de Nadine Correia (Instituto de Educação da Universidade de Lisboa), Helena Carvalho (CIES-Iscte) e Cecília Aguiar (CIS-Iscte), procurou exatamente desvendar o que está por trás desses laços que se tecem em idade pré-escolar. A literatura já sugeria que o papel do educador não se esgota no plano pedagógico, e estes dados vêm reforçar essa perceção: a qualidade das amizades — entendida como a presença de proximidade, afeto e pouco conflito — está longe de ser fruto do acaso .
Participaram no trabalho 336 crianças, com idades entre os 42 e os 76 meses, de 58 salas de jardim de infância, e as respetivas educadoras. A equipa recolheu dados em três momentos distintos ao longo de dois anos letivos, observando as práticas de participação — aquelas que incentivam a autonomia, a escolha e a expressão das crianças — e a qualidade das interações, classificada em três domínios: apoio emocional, organização da sala e apoio instrucional .
Os resultados, publicados no primeiro trimestre de 2026, não são lineares, e as próprias investigadoras admitem ter sido surpreendidas por algumas das conclusões. “Ficámos surpreendidas por perceber que estas práticas estavam associadas a mais conflito, em situações de menor tempo acumulado com a educadora”, confessou Cecília Aguiar, uma das autoras, ao comentar os dados relativos à organização da sala. Ou seja, uma sala muito estruturada, com regras consistentes, pode, num primeiro momento e se a relação com a educadora ainda for recente, gerar mais atritos entre as crianças. É como se a ordem imposta de fora ainda não tivesse sido interiorizada pelo grupo.
Por outro lado, o estudo sublinha a importância do fator tempo. Quando as crianças acumulam mais meses com a mesma educadora, o cenário altera-se significativamente. As práticas que promovem a participação infantil passam a estar associadas a níveis mais baixos de conflito nas amizades. Da mesma forma, um maior apoio ao nível da instrução — que envolve estimular o raciocínio, modelar a linguagem e dar feedback — relaciona-se com laços de maior proximidade entre os pares. “Interações educador-criança positivas, de elevada qualidade, e práticas promotoras do direito de participação das crianças (…) estão associadas ao desenvolvimento de amizades caracterizadas por envolvimento positivo e apoio mútuo”, explicou Nadine Correia, primeira autora do artigo .
Helena Carvalho, por seu turno, destacou o papel do apoio emocional: “crianças que acumulam mais meses com educadores que asseguram maior apoio emocional apresentam menos conflitos nas suas amizades”. A conclusão parece apontar para uma espécie de efeito cumulativo, em que a segurança transmitida pelo adulto, quando continuada no tempo, acaba por se refletir na forma como os mais pequenos gerem as suas próprias relações.
Apesar de as autoras salientarem que os efeitos observados são pequenos — e que, por isso, é preciso cautela na leitura dos resultados —, as implicações práticas parecem claras. Para as políticas públicas, fica o reforço da necessidade de se garantir estabilidade nas equipas educativas e de se investir na formação contínua dos profissionais. Para os educadores, o desafio é duplo: assegurar diariamente práticas de qualidade, que apoiem as crianças do ponto de vista emocional, organizacional e instrucional, e fazê-lo com a consciência de que os frutos desse trabalho, sobretudo ao nível das relações entre as crianças, podem demorar a amadurecer.
PR/HN/MM



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