Inquérito revela que 78% dos doentes crónicos temem impacto da zona

26 de Fevereiro 2026

Quase oito em cada dez doentes crónicos com mais de 50 anos temem as consequências da zona no quotidiano, mas mais de metade nunca abordou o tema com o médico. A dor já afastou um terço dos inquiridos do trabalho ou da vida social

Os dados são de um inquérito internacional que auscultou perto de seis mil adultos de dez países, todos com mais de 50 anos e a viver com alguma doença crónica. Setenta e oito por cento confessaram receio do impacto da zona no dia a dia, e 72% mostraram-se particularmente apreensivos com a hipótese de internamentos prolongados. O mesmo estudo, porém, revela uma clivagem: 54% dos inquiridos nunca tiveram uma conversa aprofundada sobre o assunto com o profissional de saúde que os acompanha.

A zona resulta da reativação do vírus varicela-zoster, o mesmo da varicela, e tende a aparecer de forma mais agressiva em pessoas cujo sistema imunitário está fragilizado. Quem já vive com doenças crónicas – cardiovasculares, renais, diabetes ou patologias respiratórias – apresenta um risco acrescido, que pode chegar aos 41% no caso de quem tem DPOC ou asma. Apesar disso, 25% dos participantes no inquérito acreditam que a sua condição crónica não influencia o sistema imunitário nem o risco de desenvolver zona, e 46% ignoram que podem estar mais expostos a formas graves da doença.

Entre os que já passaram por um episódio de zona, 42% descrevem dores intensas com forte impacto na rotina. Um terço confirmou mesmo que a doença os impediu de trabalhar ou de comparecer a eventos sociais.

Em Portugal, a distância entre a perceção do risco e a realidade parece particularmente acentuada. Um inquérito realizado em 2025, focado na população com mais de 50 anos, concluiu que 40% dos inquiridos não se julgam em risco de contrair zona, e 63% admitiram conhecer mal a doença. Isto num país onde, entre julho de 2023 e junho de 2024, foram diagnosticados 62.985 adultos com infeção por herpes zoster, muitos dos quais acabaram por recorrer aos cuidados de saúde. A dor intensa, a eventual perda de visão e as dificuldades motoras são algumas das marcas mais pesadas que a doença pode deixar.

José Albino, representante do Movimento Doentes pela Vacinação – MOVA, considera os números reveladores de um certo desamparo. As pessoas sentem medo, observa, mas continuam sem informação que lhes permita agir. Defende que é urgente aumentar a literacia para que, na consulta, se possam tomar decisões mais informadas, incluindo a prevenção através da vacinação.

O peso da zona não se esgota, porém, no sofrimento individual. Os custos para o Serviço Nacional de Saúde são também expressivos: estima-se que a doença represente uma despesa anual superior a 10,2 milhões de euros, repartidos entre custos diretos – cerca de 7,2 milhões – e indiretos, onde o absentismo laboral entra com mais de 2,4 milhões de euros por ano. A zona não afeta apenas a saúde do doente crónico, nota o responsável do MOVA; tem consequências sociais e económicas de peso. O movimento tem insistido na necessidade de comparticipação da vacina para grupos de risco, como forma de atenuar desigualdades no acesso.

A doença costuma manifestar-se com formigueiro ou dor numa área da pele, por vezes acompanhados de dor de cabeça ou mal-estar geral. Segue-se uma erupção cutânea, geralmente num só lado do corpo – peito, abdómen ou rosto. Em alguns casos, os sintomas desaparecem ao fim de poucas semanas; noutros, a dor persiste durante meses ou anos, evoluindo para nevralgia pós-herpética, uma condição incapacitante. Podem ainda surgir complicações cutâneas, oculares ou auditivas.

PR/HN/MM

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