![]()
Os dados são de um inquérito internacional que auscultou perto de seis mil adultos de dez países, todos com mais de 50 anos e a viver com alguma doença crónica. Setenta e oito por cento confessaram receio do impacto da zona no dia a dia, e 72% mostraram-se particularmente apreensivos com a hipótese de internamentos prolongados. O mesmo estudo, porém, revela uma clivagem: 54% dos inquiridos nunca tiveram uma conversa aprofundada sobre o assunto com o profissional de saúde que os acompanha.
A zona resulta da reativação do vírus varicela-zoster, o mesmo da varicela, e tende a aparecer de forma mais agressiva em pessoas cujo sistema imunitário está fragilizado. Quem já vive com doenças crónicas – cardiovasculares, renais, diabetes ou patologias respiratórias – apresenta um risco acrescido, que pode chegar aos 41% no caso de quem tem DPOC ou asma. Apesar disso, 25% dos participantes no inquérito acreditam que a sua condição crónica não influencia o sistema imunitário nem o risco de desenvolver zona, e 46% ignoram que podem estar mais expostos a formas graves da doença.
Entre os que já passaram por um episódio de zona, 42% descrevem dores intensas com forte impacto na rotina. Um terço confirmou mesmo que a doença os impediu de trabalhar ou de comparecer a eventos sociais.
Em Portugal, a distância entre a perceção do risco e a realidade parece particularmente acentuada. Um inquérito realizado em 2025, focado na população com mais de 50 anos, concluiu que 40% dos inquiridos não se julgam em risco de contrair zona, e 63% admitiram conhecer mal a doença. Isto num país onde, entre julho de 2023 e junho de 2024, foram diagnosticados 62.985 adultos com infeção por herpes zoster, muitos dos quais acabaram por recorrer aos cuidados de saúde. A dor intensa, a eventual perda de visão e as dificuldades motoras são algumas das marcas mais pesadas que a doença pode deixar.
José Albino, representante do Movimento Doentes pela Vacinação – MOVA, considera os números reveladores de um certo desamparo. As pessoas sentem medo, observa, mas continuam sem informação que lhes permita agir. Defende que é urgente aumentar a literacia para que, na consulta, se possam tomar decisões mais informadas, incluindo a prevenção através da vacinação.
O peso da zona não se esgota, porém, no sofrimento individual. Os custos para o Serviço Nacional de Saúde são também expressivos: estima-se que a doença represente uma despesa anual superior a 10,2 milhões de euros, repartidos entre custos diretos – cerca de 7,2 milhões – e indiretos, onde o absentismo laboral entra com mais de 2,4 milhões de euros por ano. A zona não afeta apenas a saúde do doente crónico, nota o responsável do MOVA; tem consequências sociais e económicas de peso. O movimento tem insistido na necessidade de comparticipação da vacina para grupos de risco, como forma de atenuar desigualdades no acesso.
A doença costuma manifestar-se com formigueiro ou dor numa área da pele, por vezes acompanhados de dor de cabeça ou mal-estar geral. Segue-se uma erupção cutânea, geralmente num só lado do corpo – peito, abdómen ou rosto. Em alguns casos, os sintomas desaparecem ao fim de poucas semanas; noutros, a dor persiste durante meses ou anos, evoluindo para nevralgia pós-herpética, uma condição incapacitante. Podem ainda surgir complicações cutâneas, oculares ou auditivas.
PR/HN/MM



0 Comments