Europa renova fundo de emergência para despedidos em massa

27 de Fevereiro 2026

Bruxelas regista acordo provisório para continuidade do EGF, mecanismo que já canalizou milhões para reinserção laboral em Portugal, Grécia e Bélgica

Bruxelas regista acordo provisório para continuidade do EGF, mecanismo que já canalizou milhões para reinserção laboral em Portugal, Grécia e Bélgica

EGF, desempregados, formação profissional, reconversão laboral, crise económica, globalização, transição digital, Fundo Europeu de Ajustamento à Globalização

O mecanismo comunitário que financia a reconversão profissional de trabalhadores despedidos em larga escala vai manter-se operacional, após entendimento entre negociadores do Parlamento Europeu, Conselho e Comissão. Conhecido pela sigla EGF, do inglês European Globalisation Adjustment Fund, o instrumento representa uma das faces mais tangíveis da solidariedade entre Estados-membros em contexto de choques económicos.

Criado originalmente para responder a despedimentos decorrentes da liberalização do comércio mundial, o fundo viu o seu âmbito alargado nos últimos anos. Hoje, cobre também situações provocadas por crises financeiras – como a que levou ao encerramento de três empresas de media na região grega da Ática –, pela transição para uma economia de baixo carbono, pela digitalização da indústria e até por pandemias, conforme demonstrou a crise sanitária de 2020.

Os números disponíveis nos documentos oficiais revelam a dimensão da intervenção. Em Portugal, o EGF disponibilizou 4,7 milhões de euros para apoiar setecentos e trinta trabalhadores do vestuário nas regiões do Centro, Norte e Lisboa, vítimas do aumento da concorrência internacional. O dinheiro permitiu financiar cursos vocacionais, capacitação digital e acompanhamento personalizado para quem pretendia criar o próprio negócio. Já na Bélgica, uma intervenção semelhante, no valor de 1,8 milhões de euros, beneficiou quatrocentos e oitenta e oito antigos funcionários de fabricantes de máquinas para construção civil na província de Hainaut, na Valónia. O desmantelamento de unidades fabris naquela zona francófona foi atribuído às alterações estruturais nos padrões do comércio mundial, que reduziram a competitividade das fábricas instaladas na União Europeia. Ali, o investimento comunitário canalizou-se para acções de reconversão e para mecanismos de intermediação com potenciais empregadores.

Na prática, os montantes do fundo podem ser aplicados em percursos de formação à medida, no reforço de competências digitais, em serviços de mentoria e orientação de carreira, em subsídios para quem assume cuidados a familiares ou ainda em contribuições para o arranque de actividades por conta própria. O objectivo permanece inalterado desde a criação do mecanismo: garantir que os trabalhadores despedidos não são deixados para trás quando as empresas encerram ou reestruturam.

A celaboração do acordo interinstitucional ocorre num momento em que a Comissão Europeia procura simplificar os critérios de activação do fundo, tornando mais célere a resposta a situações de desemprego em massa. Entre os aspectos em negociação estava a possibilidade de alargar a elegibilidade a trabalhadores por conta própria cuja actividade tenha cessado – um segmento particularmente exposto em crises económicas. O texto final do compromisso, obtido após várias rondas de diálogo entre os colegisladores, mantém a tónica na capacitação dos trabalhadores, evitando que o fundo seja percebido como mero mecanismo compensatório.

Os exemplos constantes da documentação oficial sublinham, porém, que a aplicação dos recursos depende da capacidade de cada Estado-membro apresentar candidaturas robustas e articular as medidas com os serviços públicos de emprego. Na Grécia, por exemplo, o montante de 2,3 milhões de euros destinado a quinhentos e cinquenta trabalhadores do sector dos media, na região da Ática, foi utilizado para orientação profissional, formação avançada e aconselhamento específico para o empreendedorismo, além de contribuições directas para o arranque de novas empresas.

A estrutura do EGF reflecte uma aposta deliberada na adaptabilidade dos trabalhadores, num contexto em que a robotização e a inteligência artificial aceleram a obsolescência de certas funções. Os decisores europeus entendem que a requalificação não é apenas uma ferramenta de inserção no mercado de trabalho, mas também um instrumento de coesão social e territorial. Em Hainaut, onde a indústria pesada durante décadas garantiu emprego estável, a transição para novas áreas de actividade revelou-se particularmente dolorosa. A intervenção do fundo permitiu atenuar os efeitos sociais do encerramento das linhas de produção.

O acordo agora alcançado terá ainda de ser formalmente aprovado pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho, num processo que deverá ficar concluído nos primeiros meses do próximo ano. Até lá, a Comissão continuará a analisar os pedidos apresentados pelos Estados, num quadro que se antecipa mais flexível. A pandemia de covid-19, ao provocar disrupções em cadeias de valor inteiras, recolocou na ordem do dia a necessidade de instrumentos comunitários ágeis para gerir o impacto social das transformações económicas.

PR/HN/MM.

 

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