Cristina Vaz de Almeida: Presidente da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde

Medicamentos: quando a receita não chega à vida real

02/27/2026

Existe uma realidade dura e invisível dentro de muitas casas: medicamentos partidos ao meio para durar mais, caixas partilhadas entre marido e mulher, receitas que ficam por aviar. Não é descuido. Não é irresponsabilidade. É falta de acesso. E o acesso ao medicamento não pode ser tratado como privilégio — é um direito humano fundamental, indissociável do direito à saúde e à dignidade.

Num país com uma população cada vez mais envelhecida e com múltiplas doenças crónicas, a despesa em saúde pesa no orçamento familiar.

A escolha torna-se injusta: pagar a renda ou comprar todos os comprimidos? Quando não se toma a medicação por falta de dinheiro, estamos perante uma falha coletiva. A adesão não é apenas responsabilidade individual. As consequências são conhecidas: menos controlo da doença, mais complicações, mais urgências e internamentos — e, paradoxalmente, mais custos para o próprio sistema.

A solidariedade é importante, mas não basta. A solução é sempre multifatorial e sistémica. Sustentabilidade também é prevenir. É necessário rever modelos de comparticipação, proteger melhor doentes crónicos e idosos polimedicados e promover embalagens ajustadas à duração real do tratamento, como as monodoses, que reduzem desperdício e facilitam a gestão financeira imediata.

A prescrição deve ser centrada no valor: simplificar esquemas terapêuticos, evitar duplicações, privilegiar genéricos quando adequados.

A farmácia comunitária pode assumir um papel ainda mais ativo, acompanhando a adesão e sinalizando situações de vulnerabilidade social. A digitalização, quando orientada para a pessoa, pode ajudar a identificar interrupções precoces e a apoiar a continuidade terapêutica.

Mas nenhum sistema será sustentável sem literacia em saúde. Pessoas informadas compreendem para que serve cada medicamento, sabem fazer perguntas, organizam a sua terapêutica e tomam decisões mais conscientes. A comunidade também é parte da solução: redes locais, associações, cuidadores capacitados. A saúde constrói-se em conjunto.

E há uma verdade simples que deve ser reforçada: exercício físico é medicina. Reduz o risco cardiovascular, melhora o controlo da diabetes, protege a saúde mental e mantém a autonomia funcional. Investir em atividade física comunitária é também aliviar a pressão sobre a despesa farmacêutica.

Garantir acesso ao medicamento é proteger dignidade. Garantir sustentabilidade é investir em prevenção, literacia em saúde e comunidade. A saúde pública começa nas políticas, mas concretiza-se nas escolhas coletivas que colocam as pessoas no centro.

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