Governo sul-africano declara catástrofe nacional e pede ajuda internacional para travar epidemia que ameaça setor da carne

28 de Fevereiro 2026

O Governo sul-africano deu início a uma campanha de vacinação em massa do gado para travar um surto de febre aftosa que já levou ao abate de mais de 120 mil animais e ameaça as exportações de carne e laticínios

A epidemia, que começou a ganhar força nos últimos meses do ano passado, alastrou-se rapidamente pelas províncias com produção pecuária e já atingiu mais de 297 mil bovinos. Os números são atualizados diariamente e os agricultores enfrentam dificuldades para travar a propagação do vírus, que se transmite com facilidade entre animais de casco fendido.

O ministro da Agricultura, John Steenhuisen, marcou presença na cerimónia de distribuição do primeiro milhão de vacinas, entretanto chegadas da Turquia, e sublinhou a mudança de estratégia das autoridades. “A única estratégia que adotamos, em última análise, é a estratégia de vacinação em massa, porque assim podemos antecipar-nos à febre aftosa na África do Sul e garantir que conseguimos prevenir surtos, em vez de reagir a eles”, afirmou, num discurso dirigido a produtores e representantes do setor.

Há a expectativa de que mais vacinas cheguem durante o fim de semana, mas os agricultores mostram-se apreensivos. O receio é que o stock disponível fique muito aquém do necessário para imunizar perto de 12 milhões de bovinos em todo o território. A província de KwaZulu-Natal, na costa oriental, foi identificada como o epicentro do surto, com mais de 17 mil explorações afetadas, o que levou o Governo a declarar o estado de catástrofe nacional. Este quadro jurídico permite a mobilização de fundos de emergência, que serão canalizados prioritariamente para a aquisição de vacinas.

O Tesouro Nacional já reservou qualquer coisa como 25 milhões de dólares (cerca de 21,1 milhões de euros) para fazer face à crise. Apesar do esforço financeiro, a perceção no terreno é a de que a doença está longe de estar controlada. Dirk Verwoerd, veterinário principal da Karan Beef, a maior produtora de carne do país, não esconde a preocupação. “É uma epidemia que está fora de controlo, completamente fora de controlo. Há infeções desenfreadas a ocorrer em todas as províncias, diariamente há cada vez mais relatos, por isso o primeiro objetivo é garantir estabilidade e é por isso que precisamos de vacinar o rebanho nacional, a população nacional”, disse.

A Karan Beef tem o seu principal confinamento em Heidelberg, a cerca de 50 quilómetros de Joanesburgo, numa área que se estende por 2.300 hectares e tem capacidade para albergar mais de 140 mil bovinos. A dimensão da operação dá a medida do que está em jogo. O surto ameaça não só destruir meios de subsistência e provocar milhares de desempregados, como também fazer disparar o preço da carne no mercado interno e comprometer as vendas ao exterior. Países como a China e a Zâmbia já suspenderam as importações de carne e gado vivo sul-africano, um golpe duro para um setor que gera milhões de dólares em receitas anuais.

No meio da corrida às vacinas, os produtores queixam-se de falta de informação clara sobre a logística da campanha e muitos duvidam que o Governo consiga vacinar todo o efetivo pecuário a tempo de travar a propagação do vírus. A febre aftosa, que não representa risco para os seres humanos, causa febre e lesões na boca e nos cascos dos animais, levando à perda de peso e à queda na produção de leite. Para os agricultores, o abate sanitário é a única forma de impedir que o vírus se espalhe ainda mais, mas a decisão de sacrificar dezenas de milhares de cabeças de gado está a gerar tensão e desespero nas comunidades rurais.

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/africa-do-sul-lanca-campanha-de-vacinacao-contra-epidemia-de-febre-aftosa_1637892

NR/HN/Lusa

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