Limpa as ruas do Porto mas não tem casa. História de Andrei, imigrante romeno

28 de Fevereiro 2026

Andrei varre as ruas do Porto durante o dia, mas à noite regressa ao abrigo da AMI. Imigrante romeno, chegou ao país com 20 euros e, apesar de trabalhar como cantoneiro, não consegue renda para um quarto. História de quem recomeça

Andrei tem 48 anos, um cartão de vigilante tirado com esforço e um emprego que o leva para as ruas do Porto todas as manhãs. Empunha a vassoura como cantoneiro ao serviço de uma empresa privada que trabalha para a autarquia, limpa sarjetas, cuida dos passeios, mas quando o turno termina não tem uma porta que possa fechar atrás de si. Regressa ao Abrigo do Porto, da Assistência Médica Internacional (AMI), onde pernoita com outras dezenas de homens em situação semelhante.

Em entrevista à agência Lusa, Andrei – nome fictício para proteção do entrevistado – conta a sua história num português fluente, aprendido nos anos de cá. Chegou a Portugal pela primeira vez em 2009, sozinho, fugindo às dificuldades económicas da Roménia, que descreve como “muito difíceis”. Fixou-se em Lisboa, arranjou trabalho e um quarto numa casa partilhada. Ao fim de poucos meses, um amigo romeno juntou-se a ele e acabaram por mudar de emprego. A decisão revelou-se um tiro pela culatra. O novo trabalho não correu como planeado e Andrei viu-se desempregado. Os dois acabaram alojados num albergue da capital.

Foi nessa altura que a relação com o compatriota azedou. Começou com pequenas diferenças, depois vieram as ameaças e a perseguição. Andrei prefere não detalhar, mas o suficiente para que, em 2017, com a ajuda da igreja ortodoxa, decidisse regressar à Roménia. “A situação não estava favorável”, diz.

Na terra-natal, trabalhou durante sete anos sem parar. Entretanto, a pandemia de covid-19 veio agitar as águas. As dificuldades económicas, que nunca tinham desaparecido por completo, agravaram-se e Andrei sentiu novamente o impulso de sair. Desta vez, o destino foi o Porto. Chegou com 20 euros no bolso e sem saber bem o que o esperava. “Comecei a perguntar onde poderia comer, indicaram-me as carrinhas de apoio aos sem-abrigo”, recorda.

A rota percorrida por quem vive na rua tem etapas mais ou menos conhecidas. As carrinhas encaminharam-no para a Segurança Social, e daí para o Abrigo do Porto, da AMI. Ali passou uns meses a receber o Rendimento Social de Inserção (RSI). Pouco a pouco, foi juntando algum do dinheiro que conseguia com pequenos trabalhos até fazer uma formação de vigilante. Obteve o cartão do Ministério da Administração Interna (MAI), documento obrigatório para quem quer trabalhar em segurança privada, como porteiro ou em eventos. Sem ele, a atividade é ilegal.

Em paralelo, a equipa do abrigo orientou-o para uma formação de empregabilidade e, depois, para o mercado de trabalho. Foi assim que se tornou cantoneiro. Perguntado sobre onde se vê daqui a cinco anos, não hesita: “Quero manter-me em Portugal, pois não consigo viver na Roménia”. E tem planos: refazer a formação de vigilante para renovar o cartão do MAI e regressar à área. O sonho é deixar a vassoura e voltar a trabalhar em segurança.

Andrei é um dos 59 homens em situação de sem-abrigo apoiados pelo Abrigo do Porto ao longo de 2025. Os números mostram uma tendência que a instituição acompanha com preocupação: o apoio a estrangeiros quase triplicou entre 2020 e 2025, passando de 10,2% para 28,8% dos utentes. Em 2020, representavam 10,3%; em 2021, 12,1%; no ano seguinte, 17,5%; em 2023, o valor disparou para 23,5% e, em 2024, atingiu os 30%.

Os dados oficiais da Câmara do Porto apontam para 553 pessoas em situação de sem-abrigo em 2024, uma redução em relação às 597 de 2023 e às 647 de 2022. A maioria não é natural do Porto: 39,9% vêm de outros municípios, 8,2% dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, 1,6% de países da União Europeia e 3,4% de outras origens.

NR/HN/Lusa

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