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A confirmação do encontro, marcado para as 16:30, chega num contexto de tensão entre a tutela e os municípios da margem sul, que se queixam de sucessivos adiamentos. Carlos Albino, presidente da Câmara da Moita, revelou que a posição dos autarcas se mantém “fiel ao que foi definido em 2025”, ou seja, a recusa liminar do encerramento do serviço de urgências de obstetrícia e ginecologia do Hospital Nossa Senhora do Rosário. Durante a Assembleia Municipal que decorreu na noite de sexta-feira, Albino não poupou críticas: “Esta reunião chega tarde. Não aceitamos retrocessos nem a quebra de compromissos que coloquem em risco a nossa população. Sabemos quais são as nossas responsabilidades, mas não esquecemos as de quem governa o país”.
A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, anunciou na terça-feira no parlamento que a urgência do Barreiro vai mesmo fechar, inserindo-se essa decisão num plano mais vasto de criação de urgências regionais especializadas. A nova urgência de obstetrícia e ginecologia para a Península de Setúbal funcionará no Hospital Garcia de Orta, em Almada, com entrada em funcionamento prevista ainda para março. A ministra fez questão de salientar que, apesar do encerramento da urgência, o hospital manterá a atividade de partos programados e os serviços diferenciados na área da obstetrícia. “Vão continuar a nascer bebés no Barreiro, obviamente. Nem todos os partos são em urgência”, justificou.
No entanto, a garantia não convenceu os autarcas. A Câmara da Moita considera que a estratégia do Governo representa um recuo face ao entendimento que vinha sendo construído com equipas anteriores e coloca em causa a segurança das populações. O alerta não vem apenas do poder local. A Federação dos Bombeiros do Distrito de Setúbal veio a público manifestar preocupação com o aumento do risco de partos em contexto pré-hospitalar, uma realidade que, segundo a federação, já afeta a região. Em comunicado, a estrutura alertou que a deslocação de grávidas para Almada ou Setúbal agravará os tempos de transporte e pressionará os meios de socorro, num território marcado por constrangimentos rodoviários. “Cada parto realizado numa ambulância representa uma situação de maior vulnerabilidade clínica”, sublinha a federação, adiantando que em 2025 se registaram mais de 150 partos extra-hospitalares a nível nacional.
A polémica levou mesmo à convocação de uma reunião de emergência dos nove presidentes da Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal, marcada para a manhã deste sábado. O encontro, solicitado pela autarquia da Moita e convocado por Frederico Rosa, presidente da CIM, pretende definir uma posição conjunta. Os concelhos abrangidos pela CIM — Almada, Seixal, Barreiro, Moita, Montijo, Setúbal, Sesimbra, Palmela e Alcochete — representam uma das regiões mais populosas do país, com 834.599 habitantes segundo dados de 2023 do INE. Só os quatro concelhos diretamente dependentes do Hospital do Barreiro somam 232.604 residentes.
O Hospital Nossa Senhora do Rosário integra a Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho e sempre funcionou como referência para a população da margem sul. A decisão do Ministério, explicada pela falta de condições da unidade e pela necessidade de concentrar recursos humanos especializados, surge depois de um período em que as três urgências de obstetrícia da península funcionaram em regime de rotatividade, sujeitando os profissionais a um “esforço desumano”, nas palavras da própria ministra. Ana Paula Martins assegurou que o processo está a ser trabalhado com os clínicos e que o modelo não está a ser imposto, mas sim construído com quem conhece a realidade dos serviços.
NR/HN/Lusa



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