Morte de 10 doentes em lista de espera no Porto acende guerra política nos cuidados cardíacos

28 de Fevereiro 2026

O PCP acusoa o Governo de querer usar a sobrecarga assistencial como pretexto para criar novos centros de cirurgia cardíaca, uma medida que, no entender dos comunistas, fragmenta recursos, agrava a competição entre profissionais e esvazia a capacidade instalada nos hospitais de referência do Norte

A Direção da Organização Regional do Porto (DORP) do PCP reagiu, em comunicado, às declarações da ministra da Saúde, que na terça-feira se mostrou “totalmente aberta” à expansão dos Centros de Responsabilidade Integrada (CRI) na área cardíaca, desde que com aval da Direção-Geral da Saúde e de peritos. O partido vê na intenção uma manobra que desvia a discussão do que considera ser o cerne da questão: o desinvestimento crónico no Serviço Nacional de Saúde.

“Não admitimos que, à boleia da sobrecarga assistencial dos serviços nos hospitais de S. João e de Gaia, se multipliquem serviços parciais e se dispersem meios, que se compita por profissionais e se esvazie a capacidade dos centros existentes”, lê-se na nota, que antevê a abertura de uma porta para a entrega destes procedimentos a grupos privados de saúde.

O alerta surgiu depois de o diretor do serviço de Cardiologia da ULS Santo António ter revelado à RTP que, só naquela unidade, dez doentes morreram nos últimos três anos enquanto aguardavam por cirurgia ou implantação de válvula aórtica, vítimas de uma lista de espera que classificou como “demasiado elevada”. A denúncia, que já levou o Ministério da Saúde a ordenar uma “avaliação urgente” na sexta-feira, junta-se a preocupações manifestadas por quatro serviços de cardiologia do Norte.

Para os comunistas, a resposta do executivo revela uma estratégia que passa por ignorar a degradação das carreiras e a contratação de serviços externos. “Os responsáveis políticos têm procurado reduzir este tema à abertura ou não de novos centros e à gestão dos escassos recursos, fugindo ao essencial: a política de desinvestimento no SNS, seguida por sucessivos Governos – do PSD-CDS e do PS, agora com o apoio do Chega e da IL – que cria assimetrias e competição entre unidades de saúde”, afirmam.

A DORP do PCP sustenta que multiplicar unidades sem reforçar os quadros existentes colocará em risco a resposta atualmente garantida. Em vez disso, defendem que o caminho deve passar por “atrair e reter profissionais altamente especializados no SNS” através da sua valorização profissional, enfrentando aquilo a que chamam “os interesses dos grupos privados da doença”. A ministra da Saúde garantiu na terça-feira que qualquer solução não ultrapassará a competência da direção executiva do SNS, da DGS e da coordenação dos centros de referência, lembrando que a rede de referenciação já permitiu a abertura de dois novos CRI na área da cirurgia cardíaca, em Braga e no Algarve.

NR/HN/Lusa

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