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Viver com uma doença rara é já, por si, só um desafio. A raridade do problema a isso obriga, ao significar, quase sempre, desconhecimento, falta de compreensão e uma luta constante por reconhecimento e apoio. É isso que acontece com a fenilcetonúria (PKU), uma doença hereditária que afeta cerca de 1 em cada 11.461 recém-nascidos em Portugal e que implica um tratamento exigente, rigoroso e para toda a vida.
A PKU resulta da ausência ou deficiência de uma enzima responsável por transformar a fenilalanina, um aminoácido presente em todos os alimentos com proteína. Quando essa transformação não acontece, a fenilalanina acumula-se no organismo e torna-se tóxica para o cérebro, pelo que, sem tratamento, a maioria das pessoas com PKU desenvolveria deficiência intelectual grave. Por isso, desde os primeiros dias de vida, é essencial seguir uma dieta altamente controlada, que mantenha os níveis deste aminoácido dentro de valores seguros.
Essa dieta, que é o tratamento padrão, implica reduzir drasticamente a ingestão de proteínas naturais e substituí-las por uma fórmula especial, quase isenta de fenilalanina, mas rica nos restantes aminoácidos necessários ao crescimento. Nas formas mais graves da doença, alimentos como leite, carne, peixe, ovos ou leguminosas são totalmente proibidos. Uma restrição que, embora essencial, empobrece o aporte de nutrientes essenciais e pode aumentar o risco de comorbilidades multissistémicas, incluindo alterações neuropsiquiátricas, cardiovasculares, renais, ósseas e metabólicas. Por este motivo, o tratamento da PKU deverá ser iniciado o mais precocemente possível após o diagnóstico, de forma a prevenir lesões irreversíveis. A intervenção precoce previne a deficiência intelectual grave causada por níveis elevados de Phe.
Não é difícil imaginar o impacto que isto tem no dia a dia. A dieta é exigente, repetitiva e, muitas vezes, socialmente limitadora. Na adolescência, fase em que a autonomia cresce e a pressão social aumenta, manter o tratamento torna-se ainda mais difícil. O sabor e o odor das misturas de aminoácidos, a diferença à mesa e a necessidade de vigilância constante tornam o processo desgastante para os jovens e para as suas famílias. E, no entanto, o tratamento não pode falhar.
Em Portugal, as pessoas com PKU são acompanhadas em Centros de Referência de Doenças Hereditárias do Metabolismo, com equipas multidisciplinares e acesso aos tratamentos já existentes e aprovados pelo Serviço Nacional de Saúde. Mas o maior obstáculo continua a ser a adesão rigorosa ao tratamento — sobretudo na adolescência e idade adulta e o receio das consequências neurológicas a longo prazo.
É que as consequências de um mau controlo podem ser graves. As concentrações elevadas de Phe no sangue estão fortemente relacionadas com deterioração neurocognitiva, alterações de comportamento, défice de atenção, hiperatividade, convulsões, problemas motores e alterações psiquiátricas. São consequências que podem surgir em qualquer idade e, muitas vezes, de forma irreversível.
Nos últimos anos, a investigação tem avançado de forma promissora. Estão a surgir tratamentos complementares ou alternativas à dieta tradicional, todos com o mesmo objetivo: reduzir os níveis de fenilalanina no sangue, melhorar o funcionamento neuropsicológico e, também muito importante, aliviar o peso diário que a PKU coloca sobre quem vive com ela.
Porque, no fim de contas, o diagnóstico de PKU é um evento transformador. É uma realidade que molda rotinas, escolhas, relações e expectativas. E cada passo dado pela ciência rumo a tratamentos mais acessíveis e menos restritivos representa, para estas pessoas, a possibilidade de uma melhor qualidade de vida.


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