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O recandidato, que volta a concorrer isolado à liderança socialista, fez um discurso onde o tom de balanço se misturou com a necessidade de demarcar terreno político. Depois de defender ter unido o partido “quando o declínio parecia irreversível”, pegou noutro vetor: o ataque ao adversário. E fê-lo com uma estratégia curiosa, pegando numa figura que podia ser incómoda para a direita. “Compreendo, pois, as palavras de quem já teve responsabilidades no país, ao dizer que o governo não reforma e apenas gere, e mal, o dia-a-dia”, atirou, numa clara referência ao antigo primeiro-ministro do PSD, Pedro Passos Coelho, sem nunca lhe pegar no nome. A ideia, percebeu-se, era aproveitar o desalinhamento interno no adversário para sublinhar a ideia de que o actual executivo vive de expedientes.
A crítica endureceu quando falou da economia. Carneiro acusou o Governo de, “em pouco tempo”, ter deitado fora “a folga orçamental” deixada pelas anteriores maiorias absolutas do PS. Mas foi na justiça que o líder socialista colocou uma das notas mais positivas do seu discurso. Garantiu estar disponível para um “amplo consenso em torno da reforma da Justiça, pilar essencial do Estado de direito e da qualidade da vida democrática”, numa tentativa de mostrar que, apesar da crispação, há espaço para entendimentos de regime.
No entanto, a disponibilidade para o diálogo parece ter limites claros quando o assunto é a governação. Carneiro lembrou ter feito chegar ao executivo propostas concretas na área da defesa, classificando o momento como “uma oportunidade única para transformar e modernizar a estrutura industrial portuguesa”, mas lamentou que o executivo se tenha mostrado “insensível à iniciativa política do PS”. E aí deixou cair a expressão que marcou a primeira parte da intervenção: o Governo é, disse, “sempre tático e partidário”. Uma acusação pesada, que visa colar ao adversário a ideia de que prefere o confronto ao trabalho de fundo.
Na saúde, apontou bateria: “Os falhanços do governo na Saúde mostraram a necessidade de uma alternativa sólida e credível”, garantiu, assegurando que essa alternativa está no PS. Na habitação, recusou deixar de lado o tema. Lembrou que Portugal é “um dos países da OCDE onde o custo com a habitação mais tem crescido” e prometeu uma meta ambiciosa se regressar a São Bento: garantir que até 2035 “todas as famílias devem viver numa habitação condigna, mobilizando todos os recursos públicos, cooperativos, sociais e privados”.
Houve ainda espaço para falar de trabalho e de geopolítica. Sobre a legislação laboral, Carneiro fez questão de demarcar o partido de uma certa ideia de flexibilização: “O país não contará com o PS para fazer da dignidade laboral o único fator e moeda de troca de uma falsa competitividade”, avisou. Já na política externa, e no dia em que Israel e os Estados Unidos lançaram um ataque contra o Irão, o líder socialista deixou uma nota de princípio: “As intervenções militares não podem, não devem ocorrer à margem do direito internacional.”
A fechar, propôs uma bandeira para a próxima década: o direito à autonomia. “Não queremos uma geração dependente. Queremos construir a geração da autonomia”, rematou, num discurso onde esteve rodeado de algumas das figuras históricas do partido, como Maria de Belém Roseira, ou ex-governantes como Alexandra Leitão, Ana Mendes Godinho e Ana Jorge. O presidente do PS, Carlos César, também marcou presença.
NR/HN/Lusa



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