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Há uma verdade antiga, quase doméstica, que a modernidade teima em esquecer: “as escadas lavam-se de cima para baixo”! Não por capricho da gravidade, mas por uma elementar coerência física e moral. O mesmo se aplica às mais variadas instituições, às escolas, aos serviços de saúde e, em particular, à Enfermagem. Liderar é começar por cima; ensinar é encarnar primeiro; exigir é dar o exemplo antes de pedir resultados.
A ideia não é nova.
Albert Schweitzer, Nobel da Paz, lembrava que “o exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros; é a única”. A frase pode soar excessiva, mas encerra uma intuição robusta: a autoridade e a propriedade não se proclamam, demonstram-se. Também Aristóteles, na sua Ética a Nicómaco, defendia que nos tornamos justos praticando a justiça, sendo que a virtude se constrói pelo hábito. Immanuel Kant, filósofo alemão do Iluminismo e autor da conhecida obra: “Crítica da Razão Pura”, com a sua severidade prussiana, lembrava que o dever não é uma sugestão simpática; é uma exigência racional que começa em cada um de nós.
Mas talvez a imagem mais incisiva venha de um púlpito. O Padre António Vieira, no célebre “Sermão da Sexagésima”, advertia que não se pode “endireitar a vara da sombra torta”. Se o tronco é curvo, a sombra não será direita. Se o mestre é displicente, o discípulo dificilmente será rigoroso. Se o líder se permite a exceção permanente, a regra torna-se ficção. A pedagogia da sombra é implacável: os estudantes aprendem menos com o que dizemos e mais com o que fazemos.
Na educação contemporânea, vivemos uma tensão permanente entre inclusão e exigência. A democratização do acesso ao ensino superior foi uma conquista civilizacional…eis um facto. Mas, a diluição de critérios não precisa de o ser! Confunde-se, por vezes, empatia com complacência, apoio com facilitismo, bem-estar com ausência de rigor. No entanto, como sublinhava Hannah Arendt, educar é assumir responsabilidade pelo mundo tal como ele é, e isso implica preparar os mais novos para a realidade e não para uma versão higienizada dela.
Na área da saúde, esta questão adquire contornos catastróficos. A margem de erro é estreita; a consequência da negligência é humana. Em Enfermagem, onde o cuidado é simultaneamente ciência e arte, técnica e relação, o padrão de exigência não pode oscilar (e permitam-me a expressão) ao sabor de “tendências ou modas pedagógicas”. Um estudante que aprende num ambiente onde o atraso é continuamente tolerado, a documentação é feita “quando der” e as normas/protocolos são “orientações eternamente flexíveis”, dificilmente se transformará num profissional meticuloso à cabeceira do doente… (E eu para mim, e para os meus, não quero um exemplar desses)!
É aqui que, as lideranças académicas e clínicas se fundem. O professor que corrige com rigor, que fundamenta decisões na melhor evidência científica disponível, que reconhece o potencial de progressão está a construir uma cultura de segurança. O Enfermeiro orientador que cumpre escrupulosamente os procedimentos e os regulamentos, que comunica com clareza e que trata cada doente com dignidade inegociável, está a ensinar sem precisar de “slides”.
A investigação em comportamento organizacional confirma o que a intuição moral já sabia: culturas de alta fiabilidade e credibilidade nascem de lideranças transformacionais coerentes e transparentes. Não é possível exigir segurança do doente num serviço onde a segurança psicológica da equipa é ignorada. Não é credível apelar à humanização dos cuidados quando a relação entre pares é desumanizada. A escada, se não for lavada no topo, acumulará sujidade degrau após degrau, até que alguém escorregue!!
Há, naturalmente, uma certa propensão e um humor involuntário associado, na nossa tendência para redigir regulamentos cada vez mais extensos para compensar exemplos cada vez mais curtos. Multiplicamos circulares, criamos comissões e grupos de trabalho, elaboramos planos estratégicos com gráficos impecáveis e depois chegamos atrasados à reunião onde os vamos apresentar. Talvez devêssemos começar por algo mais radical: cumprir o horário, ler os artigos que citamos, respeitar os protocolos que ensinamos.
“Pedir mais” não é desumanizar! É acreditar na capacidade de superação e resiliência. A exigência, quando acompanhada de apoio e clareza, é uma forma elevada de respeito. Como lembrava Viktor Frankl, psiquiatra e neurologista austríaco, que sobreviveu a vários campos de concentração nazis durante a II Guerra Mundial, quando apontamos para um nível mais alto do que o atual, aumentamos a probabilidade de crescimento. A fasquia colocada no chão não eleva absolutamente ninguém.
No nosso contexto atual marcado por carências estruturais na saúde, sobrecarga dos profissionais e desafios crescentes na formação, a tentação de baixar expectativas é eventualmente compreensível. Mas é precisamente em tempos difíceis que, o exemplo se torna mais eloquente. O estudante observa como o seu supervisor reage à pressão, como comunica más notícias, como decide sob incerteza. Aprende, sobretudo, como se é profissional quando ninguém está a avaliar formalmente.
“As escadas lavam-se de cima para baixo” não é apenas uma metáfora organizacional…é um imperativo categórico. Se almejamos cuidados de saúde de qualidade e mais seguros, precisamos de líderes académicos e clínicos mais rigorosos e exigentes. Se desejamos profissionais mais autónomos e crítico-reflexivos, devemos trabalhar o pensamento crítico e a autonomia responsável, em vez de fomentarmos a “síndrome de manada”, ou o “Ctrl+C, Ctrl+V existencial e acéfalo”. Se aspiramos a uma Enfermagem profundamente científica, humana e socialmente relevante e significativa para as Pessoas, comecemos por ser nós próprios, a síntese desses predicados.
Porque a sombra, inevitavelmente, seguirá a forma da vara. E na saúde, ao contrário das sombras, os efeitos são bem reais.


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