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Numa curta nota divulgada no sítio oficial da Presidência na Internet, Marcelo Rebelo de Sousa recorda que a 02 de março de 2020 se “iniciou uma longa batalha sanitária em Portugal e em todo o mundo”. A declaração surge precisamente seis anos depois de terem sido confirmadas as primeiras infeções com o coronavírus SARS-CoV-2 em território nacional, um marco que acabaria por transformar de forma dramática a rotina dos portugueses e o funcionamento das instituições.
Nove dias depois, a 11 de março, a Organização Mundial da Saúde classificava a situação como pandemia. A 16 desse mesmo mês chegava a primeira morte associada à doença. De acordo com dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, entre 2020 e 2022 contabilizaram-se mais de 3,4 milhões de casos e ultrapassaram-se as 21 mil vítimas mortais.
A crise sanitária atravessou os dois mandatos do atual chefe de Estado, que nos momentos mais críticos recorreu 15 vezes à declaração do estado de emergência — um mecanismo constitucional que suspende direitos, liberdades e garantias e que, até então, nunca havia sido acionado em democracia. O Presidente falou ao país em várias ocasiões, sempre depois de ouvido o Governo e com o aval do parlamento.
Marcelo Rebelo de Sousa esteve também presente em 26 reuniões no Infarmed, em Lisboa, encontros periódicos que juntavam especialistas em saúde pública e responsáveis políticos. Em mais do que uma ocasião, coube-lhe a tarefa de transmitir publicamente as conclusões dessas sessões, num exercício de comunicação que muitos elogiaram e outros tantos criticaram pela exposição prolongada.
A nota hoje divulgada não entra em detalhes sobre o balanço político ou sanitário, preferindo destacar a resposta coletiva. “Batalha ganha”, insiste o texto, embora reconhecendo o preço pago.
Na próxima segunda-feira, 09 de março, Marcelo Rebelo de Sousa cessará funções, dando lugar a António José Seguro, que tomará posse perante a Assembleia da República. A passagem de testemunho acontece numa altura em que o país já não aplica restrições sanitárias e o vírus se tornou endémico, mas a memória dos meses mais duros permanece, com os hospitais sob pressão e as equipamentos de proteção individual a escassear nas farmácias e nos supermercados. Houve até quem guardasse as máscaras cirúrgicas numa gaveta, como quem conserva um objeto de outros tempos.
Algumas famílias perderam entes queridos sem direito a despedida condigna, e essa ferida, essa sim, não cicatrizou com o fim da emergência. O Presidente não o diz na nota, mas talvez seja isso que significa “muito sofrimento”.
NR/HN/Lusa



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