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Uma investigação publicada esta quinta-feira na revista Nature Immunology propõe uma reviravolta na forma como se compreende a prevenção das alergias respiratórias. Segundo o trabalho, liderado por Lucie Peduto no Instituto Pasteur, em Paris, a exposição controlada dos pulmões a fragmentos de vírus ou bactérias pode induzir uma memória de longa duração que, na prática, blinda o órgão contra reações alérgicas futuras. O estudo chega num momento em que doenças como a asma e a rinite alérgica ganham terreno na maioria dos países, um agravamento que os especialistas associam à poluição atmosférica e às perturbações ambientais induzidas pelas alterações climáticas.
Os investigadores demonstraram, em modelos animais, que a administração de fragmentos microbianos diretamente nos pulmões desencadeia uma resposta imunitária inicial. O passo seguinte foi decisivo: ao expor os roedores a um alergénio, constataram que os animais se mantinham protegidos por um período que rondou as seis semanas. Mais surpreendente ainda, a pré-exposição aos micróbios garantiu uma defesa que se estendeu para lá dos três meses. “A originalidade das nossas descobertas reside na natureza desta memória, que não está nas células do sistema imunitário, mas nas células estruturais do pulmão, os fibroblastos”, explicou Lucie Peduto, citada num comunicado distribuído pela agência EFE.
Na experiência, os ratos que não beneficiaram dessa proteção inicial reagiram de forma oposta. Depois de desenvolverem uma primeira hipersensibilidade pulmonar, uma nova exposição ao alergénio revelou-se desastrosa, com uma escalada violenta da resposta alérgica. O contraste, sublinham os autores, não podia ser mais claro.
O mecanismo, detalha o estudo, reside numa alteração epigenética – uma modificação que não mexe na sequência do ADN, mas altera a forma como os genes funcionam – nos fibroblastos. São eles as células do tecido conjuntivo que dão suporte e protegem os pulmões. E foi precisamente aí que a equipa encontrou o interruptor capaz de bloquear toda a reação alérgica. Até agora, o papel de destaque na memória imunitária pertencia quase em exclusivo aos linfócitos B e T, as células de defesa clássicas. A descoberta de que os fibroblastos guardam uma memória independente e duradoura abre, segundo os cientistas, “várias perspetivas clínicas na prevenção das alergias respiratórias”.
A ideia de que a falta de exposição a micróbios na infância pode estar na origem do aumento das alergias – a chamada hipótese da higiene – ganha agora um novo pilar biológico. Mas os autores do estudo vão mais longe: se os fibroblastos podem ser treinados para silenciar a resposta alérgica, talvez seja possível desenhar estratégias que preparem os pulmões antes mesmo de a primeira crise acontecer. A investigação, ainda em fase pré-clínica, dá os primeiros passos nessa direção.
NR/HN/Lusa



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