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A Universidade do Algarve atribuiu, no dia 2 de março, o grau de Doutor Honoris Causa a Carlos M. Duarte, numa cerimónia realizada no Grande Auditório Caixa Geral de Depósitos, no Campus de Gambelas. A distinção acontece num contexto marcado pelos desafios da resiliência climática e pela recente apresentação, na região, do programa PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, que define metas para a adaptação territorial.
Na sessão de abertura, a Reitora Alexandra Teodósio enquadrou simbolicamente a homenagem no momento atual, em que o país enfrenta impactos crescentes das alterações climáticas e precisa de respostas com lastro científico. Salientou o contributo determinante de Carlos Duarte para que ecossistemas como sapais e pradarias marinhas passassem a integrar políticas climáticas internacionais, através do conceito de carbono azul, que ajudou a consolidar. Não se limitou à dimensão académica: lembrou a ligação do investigador ao Algarve, que se mantém viva através de colaborações com o Centro de Ciências do Mar, e defendeu que a região tem condições para se tornar um hub de excelência em resiliência costeira e finanças de natureza no Atlântico.
A Reitora aproveitou a ocasião para lançar um desafio público: o reforço de parcerias internacionais, nomeadamente com a King Abdullah University of Science and Technology, por forma a desenvolver projetos de restauro ecológico ancorados em monitorização científica robusta e mecanismos de medição, reporte e verificação que possam gerar créditos de carbono de elevada integridade. “Celebramos hoje não apenas uma carreira notável, mas uma ciência capaz de transformar conhecimento em impacto real, na saúde dos ecossistemas, no bem-estar das populações e na prosperidade sustentável do território”, afirmou.
Seguiu-se a laudatio, proferida por Ester Serrão, docente da UAlg e investigadora do CCMAR, que assumiu o papel de madrinha da cerimónia. Traçou o percurso do homenageado, sublinhando a projeção internacional de uma carreira com mais de 1.100 artigos publicados e presença consistente entre o 1% de cientistas mais citados do mundo. Deteve-se no papel fundador de Carlos Duarte no desenvolvimento do conceito de Carbono Azul, mais tarde formalizado com agências das Nações Unidas e hoje incorporado em estratégias globais de mitigação e adaptação. Não esqueceu a liderança em iniciativas internacionais dedicadas à reconstrução da vida marinha até 2050 e à proteção dos recifes de coral, nem o impacto da sua investigação na ecologia marinha, biodiversidade, sustentabilidade e economia azul, com reflexos diretos em políticas públicas. “O professor Carlos Duarte não transformou apenas a ciência marinha, transformou a forma como o mundo olha para o oceano”, disse.
Quando pegou no microfone, Carlos M. Duante agradeceu a distinção, que classificou como uma honra para si e para a família. Fez questão de recuperar memórias: a ligação ao Algarve vem de 1983, e as colaborações científicas com investigadores da UAlg já renderam dezenas de publicações conjuntas, para além da formação de estudantes de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento. Falou da Ria Formosa como um dos ecossistemas mais produtivos da Europa e apontou um dos desafios centrais para a região: conciliar desenvolvimento económico com conservação marinha, algo que não é simples nem linear. Numa reflexão mais alargada, defendeu que a cooperação científica internacional continua a ser uma resposta essencial, sobretudo num mundo onde os conflitos parecem multiplicar-se. E terminou com um tom mais pessoal, quase emotivo, ao confessar que aquela distinção o ajudara a reencontrar as suas raízes portuguesas.
A proposta de atribuição do título partira da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UAlg e foi aprovada por unanimidade no Senado Académico, reconhecendo uma carreira científica de impacto global e contributo direto para os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.
Sobre Carlos M. Duarte importará reter que é atualmente Professor Ibn Sina em Ciências Marinhas na Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia, na Arábia Saudita, e CEO da Plataforma Global de Aceleração de Investigação e Desenvolvimento de Corais. Já foi diretor do Oceans Institute da Universidade da Austrália Ocidental e passou por instituições em Espanha, Noruega e Dinamarca. A investigação que desenvolve centra-se nos efeitos das alterações globais nos ecossistemas marinhos e nas soluções baseadas nos oceanos para responder a desafios planetários. Foi a partir do seu trabalho, que demonstrou a relevância global de mangais, ervas marinhas e salinas enquanto sumidouros de carbono, que nasceu, em colaboração com diferentes agências da ONU, o conceito de Carbono Azul. O currículo ultrapassa os 1100 artigos científicos, e as distinções acumulam-se: é classificado como o melhor biólogo marinho e o 12.º cientista climático mais influente do mundo, segundo a Reuters. No próximo dia 16 de abril, será condecorado pelo Imperador do Japão com o Prémio Japão 2025, pela sua contribuição para a compreensão do ecossistema marinho numa Terra em mudança, com destaque para a investigação pioneira sobre o Carbono Azul. Acumula ainda funções como cientista-chefe da E1 e envolvimento na área da sustentabilidade no desporto. Tem doutoramentos honoris causa pelas Universidades de Utrecht e Quebec.
PR/HN/MM



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