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O consórcio, hoje anunciado como um dos cinco vencedores da iniciativa global Cancer Grand Challenges, junta clínicos, cientistas e representantes de doentes. Liderado pelo Francis Crick Institute, de Londres, o projeto envolve oito instituições de quatro países – Portugal, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos. O financiamento, até 25 milhões de dólares (cerca de 21,4 milhões de euros), é atribuído pela Cancer Research UK e pelo National Cancer Institute dos EUA para os próximos cinco anos.
Henrique Veiga-Fernandes, investigador principal da Fundação Champalimaud e membro da equipa, explicou que o projeto, batizado de InteroCANCEption, vai procurar desvendar a comunicação oculta entre o cérebro e os tumores. “Em primeiro lugar, será que o cérebro consegue detetar que um tumor está a crescer no corpo? E, em segundo lugar, se sim, como responde – envia sinais que ajudam a suprimir o cancro ou, em alguns casos, acaba por o apoiar inadvertidamente?”, questionou, citado em comunicado.
Tradicionalmente encarado como uma doença confinada a células e tecidos descontrolados, o cancro começa a ser visto sob uma nova perspetiva. Os investigadores sublinham que os tumores não existem isolados e que os nervos os infiltram, influenciando o seu crescimento, a resposta imunitária e até sintomas como a dor ou a perda de peso. “Há evidência clara de que os nervos tanto podem promover como suprimir o crescimento tumoral”, acrescentou Veiga-Fernandes, realçando a necessidade de compreender as regras que regem essas interações, ainda uma das “dimensões menos exploradas da biologia do cancro”.
Um dos objetivos mais ambiciosos do consórcio passa por explorar se a manipulação da atividade neural pode vir a tornar-se uma arma contra a doença. “Se conseguirmos compreender os circuitos que ligam o cérebro aos tumores, poderemos conceber tipos de terapias completamente novos”, afirmou María Martínez Lopez, investigadora de pós-doutoramento no laboratório de Veiga-Fernandes, na Fundação Champalimaud.
Para o investigador português, o processo de seleção do Cancer Grand Challenges trouxe um elemento invulgar e marcante: a participação ativa de representantes de doentes. “Chegam mesmo a participar nas entrevistas das equipas finalistas. É uma forma poderosa de tornar o processo científico mais aberto e de integrar as perspetivas e experiências das pessoas que poderão vir a beneficiar do que descobrirmos”, concluiu.
NR/HN/Lusa



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