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O Dia Mundial da Obesidade não é apenas uma data simbólica. É um convite a olhar para uma realidade que está diante de nós todos os dias, mas que continua a ser mal compreendida. É uma oportunidade para trocar o julgamento pela ciência, a culpa pelo cuidado.
Em Portugal, quase um em cada quatro adultos vive com obesidade. Mais de metade da população tem excesso de peso. São números que deixaram de ser exceção e passaram a ser regra. E, no entanto, continuamos a falar da obesidade como se fosse uma escolha individual, um erro repetido à mesa ou uma falta de disciplina. Mas a verdade é mais complexa e muito menos confortável.
A obesidade é uma doença crónica. Envolve alterações hormonais, mecanismos metabólicos e uma forte predisposição genética. O organismo regula a fome, a saciedade e o gasto energético através de sistemas biológicos sofisticados. Quando tentamos contrariar esse equilíbrio, o organismo defende-se contra a perda de peso. Aumenta a fome, diminui o metabolismo, luta pela sobrevivência.
Não é uma questão de carácter. É fisiologia.
Além disso, vivemos num ambiente que facilita o aumento de peso. Alimentos muito calóricos, baratos e acessíveis. Horários exigentes, pouco sono e stress constante. Menos movimento no dia a dia. Pedir a alguém que enfrente tudo isto apenas com força de vontade é ignorar a realidade.
Reconhecer a obesidade como doença muda tudo. Muda a forma como olhamos para quem vive com ela. Muda a forma como organizamos os cuidados de saúde. E muda a responsabilidade coletiva.
Hoje, dispomos de ferramentas que há alguns anos não existiam. Novos medicamentos que atuam nos mecanismos hormonais da fome e da saciedade permitem perdas de peso significativas e sustentadas. A cirurgia metabólica tornou-se mais segura, menos invasiva e cada vez mais ajustada à fisiologia individual. Técnicas laparoscópicas avançadas, programas em regime de ambulatório para doentes selecionados e adaptações que reduzem complicações são sinais claros de evolução.
Mas, tal como acontece na diabetes ou na hipertensão, a obesidade precisa de tratamento e de acompanhamento ao longo da vida. Quando o tratamento é interrompido, o peso tende a regressar, porque a doença permanece ativa. Isto não é falha do doente. É a natureza crónica da doença.
E nenhuma inovação tecnológica será suficiente se não houver uma mudança de paradigma. Precisamos de políticas públicas que promovam ambientes mais saudáveis, de reduzir desigualdades sociais que agravam o risco de obesidade e de garantir que quem já vive com a doença tem acesso a tratamento, digno e eficaz.
Neste Dia Mundial da Obesidade, a mensagem mais importante é simples: ninguém escolhe ter esta doença. E ninguém deveria ser forçado a enfrentá-la sozinho. Tratar a obesidade é cuidar da saúde. E cuidar da saúde é um dever de todos.


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