Obesidade: vendas de medicamentos disparam 378% num ano

4 de Março 2026

A venda de medicamentos para a obesidade disparou em 2025, ultrapassando meio milhão de embalagens vendidas, quase cinco vezes mais do que em 2024, apesar de não serem comparticipados e poderem custar mais de 300 euros por mês

A procura por fármacos indicados no tratamento da obesidade atingiu valores sem precedentes em Portugal no ano passado. Dados da Associação Nacional de Farmácias (ANF), tratados pela Health Market Research (HMR), indicam que foram comercializadas 572.256 embalagens em 2025, um aumento de 378,5% face às 119.588 registadas em 2024. A informação foi divulgada à agência Lusa no âmbito do Dia Mundial da Obesidade, que se assinala hoje.

O crescimento acentuado, de acordo com a ANF, fica a dever-se sobretudo à chegada a Portugal de dois novos medicamentos: o Mounjaro e o Wegovy. Até então, o mercado estava limitado a opções como o Orlistato, o Mysimba (bupropiom + naltrexona) e o Saxenda (liraglutido). A associação ressalva, no entanto, que o Mounjaro tem indicação terapêutica também para a diabetes mellitus tipo 2, não se destinando exclusivamente ao controlo de peso.

Olhando para trás, percebe-se que a curva ascendente já vinha de trás. Em 2019, primeirio ano da série, venderam-se 45.787 embalagens. No ano seguinte, o número subiu ligeiramente para 46.500, uma variação de 1,6%. Em 2021, ultrapassaram-se as 55 mil embalagens (+18,7%) e, em 2022, as 60 mil (+9,2%). A partir de 2023, o ritmo intensificou-se: 82.513 embalagens (mais 36,9% face ao período homólogo), 119.588 em 2024 (+44,9%) e o salto exponencial no ano transacto.

Paralelamente, a cirurgia bariátrica e metabólica também registou um aumento no Serviço Nacional de Saúde. A Direção Executiva do SNS contabilizou 4.005 intervenções em 2025, mais 312 do que em 2024 e mais 581 do que em 2023. O tempo médio de espera situou-se nos 4,75 meses, abaixo do limite legal de seis meses (180 dias) para cirurgias de prioridade normal. No fecho do ano, permaneciam 1.811 doentes em lista de espera.

Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), reconhece que os centros de tratamento cirúrgico têm vindo a melhorar a sua capacidade de resposta, mas a pressão assistencial mantém-se elevada. No centro onde exerce, na ULS São João, realizam-se cerca de mil operações por ano, ainda assim insuficientes para dar vazão à lista de espera. “Há muitos, muitos doentes a precisar de uma solução cirúrgica”, sublinhou, acrescentando que uma parte significativa necessita de acompanhamento farmacológico antes e depois da intervenção.

A endocrinologista não tem dúvidas quanto à eficácia dos novos fármacos, mas insiste na necessidade de alargar o acesso. A comparticipação pública, há muito reivindicada por especialistas, médicos e associações de doentes, continua por concretizar. O preço elevado — que pode ultrapassar os 300 euros mensais — é apontado como uma barreira, sobretudo para as camadas mais desfavorecidas da população, onde a obesidade tende a ser mais prevalente.

“É verdade que para algumas pessoas há uma inacessibilidade completa, mas para outras, a pessoa pode pensar como um investimento que está a fazer em ganhos em saúde e em prolongar a sua vida”, defendeu Paula Freitas, admitindo, no entanto, que a realidade socioeconómica de muitos doentes inviabiliza esse esforço financeiro. Daí a insistência na necessidade de políticas que garantam equidade no tratamento.

A especialista lembrou ainda que a obesidade é uma doença crónica, complexa, que exige um leque variado de estratégias terapêuticas ao longo da vida. “Felizmente, temos agora boas estratégias e esperamos ter ainda melhores no futuro”, afirmou, referindo-se à evolução tanto da cirurgia como da farmacologia. “São necessárias muitas ferramentas para tentar tratar esta patologia tão grave e que causa tanta morte.”

NR/HN/Lusa

1 Comment

  1. Jennifer

    É impressionante ver este crescimento de 378% nas vendas, o que mostra bem a gravidade da situação da obesidade em Portugal. Como estrangeiro a planear a minha mudança para cá, preocupa-me o acesso a estes tratamentos, especialmente por não serem comparticipados e terem um custo tão elevado. Alguém sabe se, para além de obter o NIF através de serviços como o https://e-residence.com/nifonline/ para tratar da papelada inicial, é obrigatório ter já a residência fixada para tentar aceder ao SNS e futuramente conseguir alguma prescrição que ajude a mitigar estes custos no privado? Gostaria de saber como os residentes não-nacionais estão a lidar com este investimento na saúde.

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