Surdez congénita: cérebro usa desativação neuronal para processar imagens

4 de Março 2026

O córtex auditivo de pessoas surdas desde o nascimento processa estímulos visuais também através de desativação neuronal, um mecanismo até agora desconhecido que poderá contribuir para aperfeiçoar implantes cocleares e outros dispositivos de restauração auditiva

A descoberta resulta de uma investigação liderada por cientistas da Universidade de Coimbra (UC), publicada esta semana na revista Human Brain Mapping, e contou com a participação de investigadores da China e do Reino Unido. O trabalho sugere que as respostas de redução da atividade cerebral desempenham um papel ativo no processamento de informação sensorial quando um sentido está ausente, algo que os modelos teóricos anteriores não contemplavam.

Até agora, acreditava-se que a reorganização cerebral em pessoas com privação sensorial se manifestava essencialmente por ativação de regiões não especializadas para a função em causa. No caso dos surdos congénitos, sabia-se que o córtex auditivo é recrutado para processar estímulos visuais, mas desconhecia-se que esse recrutamento pudesse envolver padrões de supressão neuronal.

“Em estudos anteriores percebeu-se como a informação visual chegava ao córtex auditivo de pessoas surdas congénitas. Neste estudo, analisamos de que forma é que essa informação está organizada”, explicou à agência Lusa Joana Sayal, doutoranda da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC) e coautora do trabalho.

A equipa recorreu a ressonância magnética funcional para comparar a atividade cerebral de adultos surdos desde o nascimento com a de participantes ouvintes, ambos expostos a estímulos visuais. Posteriormente, aplicaram uma técnica designada modelação de campos recetivos populacionais, que permite analisar com maior detalhe as características da representação visual no cérebro.

Zohar Tal, também investigadora da FPCEUC e coautora do estudo, adiantou que nos participantes surdos o córtex auditivo apresenta respostas visuais espacialmente organizadas, semelhantes às que se observam no córtex visual — uma organização conhecida como retinotópica. “Essa reorganização sensorial não acontece apenas através de ativações, mas também por mecanismos de supressão ou desativação neuronal, que podem ser igualmente informativos”, sublinhou.

A investigação foi coordenada por Jorge Almeida, docente e investigador da FPCEUC e diretor do Proaction Lab, laboratório dedicado ao estudo dos processos cognitivos e da sua base cerebral. Os resultados abrem novas linhas de investigação sobre como o cérebro processa informação sensorial na ausência de um sentido, sugerindo que os mecanismos de plasticidade são mais complexos e diversos do que se supunha.

“As novas pistas lançadas pelo estudo podem ajudar a refinar dispositivos de alta tecnologia que são usados para restaurar a audição, como os implantes cocleares”, adiantou a mesma fonte da UC. Compreender com exatidão como o cérebro surdo se reorganiza poderá permitir ajustar estes dispositivos à arquitetura funcional de cada pessoa, melhorando a sua eficácia.

Apesar de a plasticidade cerebral ser um tema amplamente estudado na neurociência, os investigadores reconhecem que há ainda muita informação por conhecer ou esclarecer sobre os processos de adaptação do cérebro à privação sensorial. O estudo agora publicado representa um passo na compreensão desses mecanismos, ao demonstrar que a desativação neuronal pode ser tão relevante quanto a ativação na forma como o cérebro se reorganiza.

NR/HN/Lusa

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